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Selton Mello e as lições sobre ilusão e sonho

Selton Melo: a carreira foi quase interrompida pelo desânimo
Selton Melo: a carreira foi quase interrompida pelo desânimo

Por Redação do Instituto Vida e Psicanálise


A matéria publicada por O Globo em 8 de janeiro de 2026 sobre o ator brasileiro Selton Melo traz à tona uma dimensão pouco romantizada da trajetória artística: a da interrupção, da dúvida e do trabalho silencioso que sustenta a permanência.


Selton Mello é hoje um ator de projeção internacional, um dos nomes mais consistentes da cultura brasileira contemporânea. Ator, diretor, roteirista e produtor, iniciou a carreira ainda na infância e construiu uma trajetória marcada pela versatilidade entre teatro, televisão e cinema, Ao longo de mais de quatro décadas de atuação, Selton consolidou-se como símbolo de excelência técnica, sensibilidade criativa e permanência ética no cenário cultural do país.


Selton Melo em "Sessões de Terapia". Falar sobre Psicanálise e fazer terapia colaborou com a trajetória do artista
Selton Melo em "Sessões de Terapia". Falar sobre Psicanálise e fazer terapia colaborou com a trajetória do artista

A carreira do ator, porém, foi marcada por momentos turbulentos e Selton narra um período decisivo da adolescência em que acreditou ter chegado ao fim da linha. "As portas se fecharam, o cinema nacional atravessava um hiato histórico e, sem o ecossistema que hoje naturalizamos (streaming, TV a cabo, políticas de fomento), a identidade profissional vacilou". A confissão é valiosa porque rompe com a fantasia do talento como destino linear e recoloca o êxito no campo do trabalho psíquico, da espera e da capacidade de suportar frustrações.


Do ponto de vista psicanalítico, o que se vê nesse trecho da vida de Selton é o encontro abrupto com o princípio da realidade. Em Além do Princípio do Prazer (1920), Freud descreve a passagem do funcionamento psíquico orientado pelo prazer imediato para um regime em que o adiamento e a renúncia tornam-se condições de sobrevivência e criação. Quando o jovem ator se pergunta se é “péssimo” e “horrível”, não se trata apenas de uma avaliação profissional; é o narcisismo ferido buscando recomposição. O risco, nesse ponto, é o colapso da autoestima converter-se em desistência — isto é, a fantasia de onipotência negativa (“não sirvo para nada”) substituir a fantasia de onipotência positiva (“vou dar certo de qualquer modo”).


A solução encontrada — a dublagem — é exemplar. Ao ingressar na Herbert Richers, Selton desloca o investimento libidinal sem renunciar ao campo simbólico da arte. O que parecia um desvio revela-se sublimação, conceito central em Freud (Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, 1905), pelo qual a energia pulsional encontra destinos culturalmente valorizados. Enquanto a fantasia do ator em cena era suspensa, a técnica, a escuta, a língua e o ritmo eram trabalhados. A permanência, aqui, não é teimosia cega; é inteligência psíquica diante do limite.


Há ainda outro eixo decisivo: a relação entre criatividade e capitalismo. O mercado cultural brasileiro — historicamente intermitente — impõe ao artista uma negociação constante entre desejo e sobrevivência. Permanecer exige aceitar trabalhos “menores”, atravessar períodos de invisibilidade e sustentar uma ética do ofício em ambientes nem sempre favoráveis à criação. O retorno de Selton ao cinema internacional, agora atuando em Anaconda ao lado de astros hollywoodianos, adquire valor simbólico justamente por revelar a temporalidade não linear do reconhecimento. A frase “que volta que o mundo deu” sintetiza o encontro tardio entre investimento psíquico e retorno social.


"Ainda estou aqui", vencedor do Oscar e sucesso internacional alavancou a carreira ja consolidada do artista
"Ainda estou aqui", vencedor do Oscar e sucesso internacional alavancou a carreira ja consolidada do artista

Esse movimento não é exclusivo de Selton. Fernanda Montenegro, por exemplo, construiu uma das carreiras mais longevas do país atravessando décadas de precariedade institucional do teatro e do cinema nacionais, apostando na permanência quando o retorno era incerto. Milton Nascimento enfrentou recusas, deslocamentos e crises identitárias antes de consolidar uma obra universal. Em campos não artísticos, o mesmo vale para trajetórias acadêmicas marcadas por longos períodos de pesquisa invisível, bolsas instáveis e avaliações frustrantes. A conquista, quando vem, raramente apaga o custo psíquico do percurso.


É aqui que a clínica psicanalítica se torna decisiva. A terapia não serve para “matar o sonho”, mas para diferenciar sonho de ilusão. Em O Futuro de uma Ilusão (1927), Freud define a ilusão não como erro, mas como crença sustentada pelo desejo, independentemente da verificação da realidade. O sonho, ao contrário, pode ser compreendido como projeto habitável: algo que se constrói a partir das próprias capacidades, limites e do tempo necessário para sua realização. A ilusão, quando não trabalhada, funciona como fuga; o sonho, quando elaborado, torna-se bússola.


Em "Anaconda", Selton faz sua estreia em um blackbuster. Está sendo muito elgiado por seus colegas de elenco.
Em "Anaconda", Selton faz sua estreia em um blackbuster. Está sendo muito elgiado por seus colegas de elenco.

Artistas como Selton Mello oferecem às “pessoas comuns” — aquelas que ainda não alcançaram seus objetivos — um exemplo fundamental: o êxito não elimina a travessia, e a travessia não é sinal de fracasso. O luto pela mãe, narrado com delicadeza na entrevista, acrescenta outra camada: a elaboração da perda como condição de maturidade psíquica. Em Luto e Melancolia (1917), Freud distingue o trabalho de luto — doloroso, mas finito — da melancolia paralisante. A espiritualidade herdada da mãe aparece, nesse contexto, como recurso simbólico para sustentar a vida quando a realidade impõe limites inegociáveis.


Persistir, portanto, não é negar a realidade; é negociar com ela sem trair o desejo. Em tempos de promessas rápidas, carreiras instantâneas e métricas de visibilidade, a história de Selton Mello recoloca o valor da permanência como virtude ética e psíquica. Para a clínica, fica a lição: ajudar o sujeito a dimensionar suas fantasias, tolerar o tempo do mundo e sustentar investimentos possíveis é, muitas vezes, o trabalho mais transformador. O sonho que se adia pode amadurecer; a ilusão que se absolutiza cobra um preço alto. Entre um e outro, a psicanálise segue como espaço de tradução — onde a realidade deixa de ser fardo e passa a ser caminho.


Referências

  • FREUD, S. (1905). Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade.

  • FREUD, S. (1917). Luto e Melancolia.

  • FREUD, S. (1920). Além do Princípio do Prazer.

  • FREUD, S. (1927). O Futuro de uma Ilusão.

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