Chefe de família ou bode expiatório?
- João Pedro Roriz

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O “pilar” desautorizado: quando a família exige força e interdita a fragilidade
Por João Pedro Roriz
Há sujeitos que ocupam, no interior da família, uma posição paradoxal: tornam-se o eixo de sustentação material e psíquica do grupo e, exatamente por isso, passam a ser impedidos de sofrer. São aqueles que organizam rotinas, apagam incêndios, assumem despesas, funcionam como “mediadores” e, muitas vezes, como amortecedores afetivos das tensões entre os demais. Contudo, quando tentam nomear cansaço, medo, exaustão ou ressentimento, encontram uma resposta recorrente: “você está exagerando”, “está vendo errado”, “você é o problema”. A família, então, preserva o suporte que recebe desse indivíduo, mas recusa o reconhecimento do custo subjetivo que tal suporte impõe.
Essa configuração não é um diagnóstico, e sim um arranjo relacional. Ela costuma emergir da soma de três dinâmicas: parentificação/parentalização, bode expiatório e invalidação. Quando essas forças se combinam, o sujeito tende a construir uma identidade defensiva de competência permanente — um “eu que aguenta” — às vezes à custa do contato vivo com suas necessidades.
1) Parentificação: o amadurecimento forçado como destino subjetivo
A parentalização/parentificação descreve a inversão geracional em que alguém (frequentemente um filho, mas também um cônjuge ou irmão) assume funções de cuidado, administração e regulação emocional do grupo. Na prática, o sujeito se torna “adulto” antes de ser; ou, em outras circunstâncias, torna-se o “adulto de todo mundo” quando o sistema familiar fragiliza suas funções parentais e simbólicas.
Do ponto de vista psicanalítico, isso pode ser lido como uma precocidade do Eu: um Eu compelido a organizar, conter e responder ao que os outros não conseguem metabolizar. Acontece que o preço da competência precoce costuma ser a renúncia ao direito de depender — isto é, ao direito de pedir e receber amparo. Estudos brasileiros discutem como a parentalização pode marcar a vida adulta, repercutindo na forma como o sujeito se vincula, cuida e se responsabiliza por si e pelos outros.
2) O bode expiatório: o sofrimento que o grupo desloca para “um”
Em muitas famílias, o sujeito que sustenta o funcionamento cotidiano também pode tornar-se — abertamente ou de modo sutil — o bode expiatório. A lógica é conhecida na clínica: para que o grupo mantenha uma narrativa de coerência (“a família é boa”, “a casa funciona”, “ninguém falhou”), o mal-estar é deslocado e concentrado em um membro, que passa a encarnar a desarmonia (“ele reclama”, “ela é instável”, “ele é dramático”). Assim, o sistema preserva a aparência de equilíbrio, mas à custa de uma injustiça psíquica: o custo do coletivo é pago por um só.
Essa posição tem uma função: ela protege o grupo de encarar sua fragilidade estrutural e, ao mesmo tempo, mantém o “pilar” operando — porque, ao desautorizar sua queixa, o sistema impede que ele se retire da função. Em textos brasileiros sobre atendimento familiar, o “bode expiatório” aparece como via de entrada para compreender a dinâmica sistêmica e a necessidade de intervir para além do sintoma isolado.
3) Invalidação emocional: quando a família sequestra a confiança do sujeito na própria percepção
A invalidação emocional é o mecanismo comunicacional que sela o paradoxo: o sujeito pode sustentar, mas não pode sentir. Toda vez que tenta falar de limites, recebe uma mensagem de desqualificação (“você está errado”, “não é bem assim”, “para de drama”). Isso não apenas fere; isso desorganiza a capacidade do sujeito de confiar em sua experiência interna. Em termos clínicos, a invalidação repetida atinge funções psíquicas elementares: nomeação de afetos, julgamento de realidade (no plano interpessoal) e autoestima.
Há instrumentos e pesquisas em língua portuguesa que trabalham a distinção entre experiências de validação e invalidação emocional, mostrando como esses aprendizados relacionais se organizam como padrão e influenciam a regulação afetiva. (Impactum Journals) E há discussões clínicas (em português) sobre invalidação e construção de estratégias terapêuticas para lidar com modos disfuncionais de relação com as emoções, incluindo a história de invalidação como elemento relevante do quadro.
4) Gaslighting relacional: da invalidação à colonização da realidade
Quando a invalidação se torna sistemática e estratégica — e sobretudo quando visa manter o sujeito preso a um papel (“você está sempre errado”) — podemos aproximar o fenômeno do gaslighting: uma forma de violência psicológica em que a percepção da vítima é continuamente colocada sob suspeita. Embora o termo tenha se popularizado, há produção acadêmica em português que o descreve conceitualmente e discute sua lógica como violência psicológica sutil.
No cenário familiar, o efeito subjetivo é previsível: o sujeito passa a revisar incessantemente o próprio julgamento (“será que eu que sou injusto?”), sente culpa ao tentar impor limites e teme ser visto como ingrato. A família, por sua vez, reforça o circuito de dependência: exige presença, mas desautoriza a dor.
5) Tradução psicanalítica: continência, falso self e identificações projetivas
Na gramática psicanalítica, esse sujeito “pilar” costuma ser aquele que funciona como continente do excesso afetivo familiar. A formulação de continente-contido (Bion, 1962) ajuda a pensar: quando o grupo não metaboliza suas angústias, ele deposita no membro mais capaz de conter — e esse membro, por identificação com a função, passa a carregar afetos que não são inteiramente seus. Um texto de referência em português (da IPA) apresenta o conceito e sua analogia com a díade mãe-bebê e com a dupla analítica, oferecendo uma ponte direta para o manejo clínico. (Ipa World)
Quando esse padrão se prolonga, um risco clínico é a constituição de um falso self (Winnicott, 1960/1965): um modo de existir adaptativo, competente e “funcional” que, no entanto, opera como máscara protetiva do self verdadeiro. A família passa a amar a função (“você é forte”), mas a pessoa começa a perder o contato com o gesto espontâneo (“eu posso falhar”, “eu posso pedir”). Há artigos brasileiros em psicanálise discutindo de modo sistemático os conceitos winnicottianos de verdadeiro/falso self e suas implicações clínicas.
Em famílias em que o bode expiatório aparece, também é frequente observar mecanismos próximos à identificação projetiva (Klein, 1946): partes intoleráveis do grupo (culpa, fragilidade, agressividade, impotência) são “colocadas” no sujeito eleito, que passa a senti-las como se fossem exclusivamente suas. A literatura em português discute o conceito, seus desdobramentos e seu uso clínico.
Manejo clínico
A seguir, uma proposta de condução clínica em clínica psicanalítica, pensada para pacientes que ocupam esse lugar de sustentação e invalidação. O roteiro é sequencial, mas não rígido: ele deve ser ajustado à estrutura clínica, ao enquadre, ao momento do tratamento e ao estilo do analista.
Passo 1 — Diagnóstico da posição subjetiva (antes do “diagnóstico do paciente”)
Mapear o papel familiar: quem decide? quem paga? quem cuida? quem é ouvido? quem é ridicularizado quando sente?
Identificar o circuito da queixa: o que acontece imediatamente após o paciente expressar fragilidade? quem o desautoriza? em que palavras?
Localizar ganhos secundários do sistema: o que a família preserva ao manter o paciente “forte e errado”?
Aqui, a hipótese central não é “ele é sensível demais”, mas: qual função o sintoma/papel cumpre no laço? (Freud, 1914/1921; e, em leitura contemporânea, via dinâmicas de grupo e projeção).
Passo 2 — Construir um enquadre que opere como “antídoto” à invalidação
O enquadre precisa oferecer aquilo que faltou: reconhecimento da experiência interna sem julgamento moral. Em termos winnicottianos, trata-se de recuperar um ambiente suficientemente bom para que o self verdadeiro possa emergir sem ameaça de colapso (Winnicott, 1960/1965). A clínica frequentemente começa com algo simples e revolucionário para esse paciente: a autorização para estar cansado.
Uma boa bússola técnica:
interpretar menos no início,
sustentar mais (holding),
nomear o paradoxo (“você é exigido como forte, mas punido quando é humano”).
Passo 3 — Trabalhar culpa e “contrato invisível” do cuidado
Quase sempre há um contrato inconsciente: “eu cuido para existir / eu sustento para ser amado / se eu falhar, eu desapareço”.
Intervenções úteis:
interpretar a culpa como cola do vínculo;
diferenciar responsabilidade real de responsabilidade fantasmática;
reconhecer a fantasia onipotente que acompanha a parentificação (“se eu não segurar, tudo desaba”).
Passo 4 — Ler a transferência como repetição do tribunal familiar
Na transferência, o analista pode ser colocado no lugar do “coletivo” que invalida:
o paciente testa se será desautorizado (“você também acha que eu exagero?”),
ou busca aprovação como prova de que tem direito de sentir.
Aqui é decisivo sustentar uma escuta que não repita o júri doméstico.
Passo 5 — Bion: transformar “depósitos” em pensamento
Quando o paciente carrega afetos “em bruto”, o trabalho é torná-los pensáveis: angústias que eram apenas descarga (ou somatização) passam a adquirir representação. O modelo continente-contido (Bion, 1962) é especialmente fértil aqui: o analista precisa acolher o material depositado (sem atuar), metabolizar e devolver em forma interpretável. Um verbete em português da IPA ajuda a sustentar tecnicamente essa direção. (Ipa World)
Passo 6 — Intervir no falso self: recuperar gesto espontâneo, desejo e limite
Com o falso self, há risco de o paciente fazer “boa análise” para agradar. O trabalho é localizar:
onde ele “funciona” e não vive;
onde ele é eficiente e não é sujeito.
Aos poucos, a clínica visa:
recuperar desejo (o que ele quer, não só o que ele aguenta),
recuperar limite (o que ele não fará mais),
recuperar dependência legítima (pedir, receber, falhar).
A literatura brasileira sobre verdadeiro/falso self ajuda a reconhecer sinais clínicos desse funcionamento e sua relação com falhas ambientais precoces.
Passo 7 — Um estudo de caso clássico como espelho clínico: Dora (Freud, 1905)
O caso Dora é particularmente útil como analogia clínica, porque envolve:
alianças familiares,
desautorização do sofrimento,
e a disputa sobre “o que é real” na narrativa da paciente.
A releitura contemporânea do caso (em português) evidencia como o relato de Dora, inclusive sobre violência, pode ser desconsiderado ou recodificado por uma escuta enviesada, e como isso impacta o tratamento — ensinando, por contraste, a importância de não repetir o gesto de invalidar aquilo que o paciente traz como verdade subjetiva. (Pepsic)
Aplicação ao “pilar desautorizado”: muitas vezes o paciente chega trazido por uma “demanda do grupo” (como Dora foi levada pelo pai), e a clínica precisa deslocar o eixo: sair de “conserte-se para continuar sustentando” e ir para “recupere-se para existir”.
Passo 8 — Desfecho técnico: do papel ao sujeito
Um bom indicador de avanço não é “a família melhorou”, mas:
o paciente consegue reconhecer o próprio limite sem colapsar,
consegue sustentar discordância sem culpa paralisante,
consegue diferenciar amor de utilidade,
e começa a negociar presença sem sacrificar o self.
Em muitos casos, o tratamento culmina em algo que a família teme: o paciente deixa de funcionar como para-raios. Paradoxalmente, isso pode abrir espaço para reorganização do sistema — ou para a decisão de se afastar de dinâmicas cronicamente abusivas.
Glossário
Parentificação / Parentalização: inversão geracional em que alguém assume funções parentais instrumentais (tarefas) e/ou emocionais (cuidado afetivo) para sustentar o grupo.
Bode expiatório: membro eleito para receber a carga do conflito familiar, preservando a “imagem de equilíbrio” do sistema.
Invalidação emocional: comunicação que desqualifica sentimentos e percepções do sujeito (“você está errado”, “exagero”), corroendo autoconfiança e regulação afetiva.
Gaslighting: forma de violência psicológica que coloca sistematicamente a percepção do outro sob suspeita, produzindo confusão e dependência.
Continente-contido (Bion): modelo para pensar a função de conter e transformar emoções brutas em elementos psíquicos pensáveis; base técnica para manejo clínico.
Holding / Ambiente sustentador (Winnicott): qualidade de sustentação emocional do enquadre que permite integração psíquica e emergência do gesto espontâneo.
Verdadeiro self / Falso self (Winnicott): self verdadeiro ligado à espontaneidade e ao “sentir-se real”; falso self como adaptação defensiva às exigências ambientais.
Identificação projetiva (Klein): mecanismo em que partes do self são projetadas no outro, que passa a carregá-las/encarná-las, afetando o vínculo e a clínica.
Bibliografia
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IRIGARAY, H. A. R. Gaslighting: a arte de enlouquecer grupos. Revista de Administração de Empresas (RAE), 2022. Disponível em: SciELO. (SciELO)
MELLO, R. Das demandas ao dom: as crianças pais de seus pais. [Periódico PePSIC], 2015. Disponível em: PePSIC. (Pepsic)
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MOREIRA, J. L. F. M. Gaslighting como violência psicológica. Revista Perspectivas, 2023. Disponível em: PDF do periódico. (Revista Perspectivas)
PSYCHOLOGICA. Desenvolvimento de um Questionário de Experiências de (In)validação Emocional. Psychologica, [s.d.]. Disponível em: Impactum Journals (UC). (Impactum Journals)
REIS, V. A. W. Uma análise do caso Dora à luz dos quatro discursos. Ágora: Estudos em Teoria Psicanalítica, 2020. Disponível em: SciELO. (SciELO)
SIMON, R. Psicoterapia preventiva da família. Psicologia: Ciência e Profissão, 1989. Disponível em: SciELO. (SciELO)
SILVA, G. V. Sobre os conceitos de verdadeiro self e falso self. [Periódico PePSIC], 2014. Disponível em: PePSIC. (Pepsic)
VASCONCELLOS, M. C. G. Continência. Dicionário Inter-regional de Psicanálise (IPA), verbete em português. Disponível em: IPA (PDF). (Ipa World)
Observação: para os livros clássicos (Freud, Klein, Bion, Winnicott), as edições brasileiras variam (Imago, Zahar, Martins Fontes etc.). Se você me disser quais editoras/edições você usa no Instituto, eu padronizo a ABNT exatamente conforme o seu acervo.
Dois livros em português recomendados ao leitor
WINNICOTT, D. W. O ambiente e os processos de maturação. (Traduções brasileiras variam). Excelente para entender holding, falhas ambientais e construção do self.
BION, W. R. Aprendendo com a experiência. (Traduções brasileiras variam). Fundamental para pensar continência, função alfa e o trabalho do analista com afetos “em bruto”.
João Pedro Roriz é psicanalista, professor e escritor. Mestre em Psicologia pela Feevale RS. Contato: jproriz@gmail.com.






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