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Quando o corpo esconde o falo


Por Felipe Valerius


Há cerca de dois meses, venho refletindo sobre a trajetória de homens que, após atravessarem experiências intensas de sofrimento psíquico, passam a abandonar progressivamente aspectos centrais de suas vidas — família, trabalho, projetos, sonhos — encontrando no álcool uma espécie de salvação imediata. Incapazes, naquele momento, de restaurar o equilíbrio emocional, esses sujeitos recorrem à bebida como forma de amortecer a dor que marca períodos depressivos prolongados.


Segundo Arthur Guerra (2025), a dependência alcoólica ainda apresenta forte recorte de gênero: atualmente, estima-se uma proporção de quatro a cinco homens para cada mulher dependente do álcool. Trata-se, portanto, de um fenômeno que atravessa de modo particular a masculinidade contemporânea, sobretudo quando associada a sentimentos de fracasso, perda de potência e desorganização subjetiva.


Com o passar dos anos, os excessos deixam marcas no corpo. O sujeito, agora envolto por pensamentos distorcidos sobre si mesmo e sobre os acontecimentos do passado, passa a apresentar respostas corporais visíveis a esse modo de vida. A chamada “barriga de cerveja” torna-se, nesse contexto, mais do que um efeito metabólico: converte-se em um verdadeiro obstáculo ao falo. O aumento do abdômen pode dificultar a visualização e o manuseio dos órgãos genitais, além de gerar desconforto no ato sexual — experiência que reverbera simbolicamente no campo da potência e do desejo.


Quando o sofrimento psíquico não encontra vias de elaboração, o corpo acaba por assumir essa função de inscrição. Iludido pelos pequenos prazeres proporcionados pela bebida, o sujeito permite que as condições psíquicas se traduzam em uma barreira física concreta, instaurando um distanciamento progressivo em relação ao próprio falo. Entre o olhar do observador e o pênis, algo se interpõe. Surge, então, a pergunta inevitável: os genitais tornaram-se menos importantes? Os prazeres fálicos foram relegados a um segundo plano?


O encontro com o álcool é, por sua própria natureza, altamente permissivo. Trata-se de um prazer de fácil acesso, socialmente tolerado, que exige poucos movimentos de recusa — excetuando-se, evidentemente, situações envolvendo menores de idade. O ganho é imediato: a bebida atua sobre o sistema nervoso central, estimulando a liberação de neurotransmissores associados à sensação de bem-estar, como a serotonina, mantendo o sujeito preso a uma dinâmica de repetição.


Nesse cenário, não é raro observar quedas significativas de libido, acompanhadas das já conhecidas inseguranças masculinas relacionadas ao tamanho do pênis. Sobre esse ponto, o médico e sexólogo Jairo Bouer (2022) esclarece que o pênis não diminui de tamanho com o ganho de peso. O que ocorre, na verdade, é a deposição de gordura na região abdominal e suprapúbica, criando a impressão de que o órgão está menor, quando, de fato, encontra-se parcialmente encoberto. Segundo o autor, a perda de peso costuma restituir ao sujeito a percepção de que o tamanho peniano permanece inalterado.


Ainda assim, a experiência subjetiva insiste: “o pênis diminuiu”. Essa sensação, embora não corresponda à realidade anatômica, é clinicamente relevante. Se o pênis parece menor, então ele se escondeu; perdeu-se de vista; tornou-se distante e menos acessível. Instalam-se, assim, angústias fálicas ligadas à impotência, à incapacidade de conduzir a própria vida e de responder às exigências simbólicas da masculinidade.


Nesse ponto, o círculo vicioso se fecha. Quanto mais distante o sujeito se percebe de sua potência fálica, mais tende a buscar saídas regressivas, privilegiando os prazeres orais como via de satisfação imediata. O álcool, então, não apenas anestesia a dor, mas sustenta uma lógica que aprisiona o sujeito, afastando-o ainda mais da possibilidade de elaboração, simbolização e reposicionamento diante do desejo.



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Felipe Valerius é psicanalista clínico. Email: felipe-valerius@hotmail.com.

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