Psicanalistas pioneiras do Brasil no cinema
- Redação do Instituto Vida e Psicanálise

- 17 de fev.
- 3 min de leitura

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Da Redação do IVP
O cinema brasileiro volta seus olhos para a história da psicanálise ao retratar o encontro entre duas figuras fundamentais para a consolidação do campo no Brasil: Virgínia Leone Bicudo e Adelaide Koch. Sob direção de Yasmin Thayná e Jorge Furtado, o filme dramatiza um vínculo que atravessa análise, formação profissional e amizade — tudo isso em meio às tensões históricas do século XX.
Racismo e exílio: duas histórias, um encontro
A narrativa tem início em 1937, quando Virgínia Bicudo, mulher negra marcada pelas experiências de racismo estrutural no Brasil, inicia seu processo analítico com Adelaide Koch, psicanalista judia que havia deixado a Europa em razão da ascensão do nazismo.
O roteiro evita comparações simplistas entre o antissemitismo europeu e o racismo brasileiro. Em vez disso, destaca como tragédias coletivas distintas atravessam subjetividades singulares. O que se vê é o entrelaçamento de duas trajetórias marcadas por violência histórica, mas também por resistência intelectual e elaboração psíquica.
Para o público do campo psicanalítico, a relevância histórica é incontornável. Virgínia Bicudo não apenas se analisou: tornou-se uma das primeiras psicanalistas do país e uma referência nos estudos sobre relações raciais no Brasil. Adelaide Koch, por sua vez, integra o grupo de imigrantes europeus que contribuíram decisivamente para a institucionalização da psicanálise brasileira nas décadas de 1940 e 1950.
Da análise à formação: o nascimento de uma psicanalista
O filme acompanha a transformação do vínculo analítico inicial — marcado por formalidade e assimetria — em uma relação de transmissão. Virgínia passa de analisanda a colega de profissão, consolidando-se como pensadora e clínica.
Esse movimento toca em um ponto essencial da tradição psicanalítica: a análise pessoal como fundamento ético e técnico da formação. Ao dramatizar essa passagem, a obra oferece ao espectador uma reflexão sobre o lugar da experiência subjetiva na construção do saber psicanalítico.
Para instituições como o Instituto Vida e Psicanálise, essa dimensão é especialmente significativa: a psicanálise não nasce apenas de teoria, mas de encontros — frequentemente atravessados por dor, deslocamento e reinvenção.
Linguagem cinematográfica e construção de atmosfera
Um dos méritos estéticos do filme está na alternância entre o realismo do consultório — espaço privilegiado da escuta — e ambientes mais abstratos, cenográficos, que evocam memória, cartas e cenas públicas, como programas de rádio.
A escolha dialoga simbolicamente com a própria clínica: entre o espaço concreto da fala e os territórios simbólicos onde o inconsciente se encena.
As interpretações de Sophie Charlotte (como Adelaide) e Gabriela Correa (como Virgínia) são apontadas como pontos altos da obra. Sophie Charlotte constrói uma personagem de suavidade firme, evitando caricaturas, inclusive no trabalho com o sotaque estrangeiro. Gabriela Correa percorre com densidade diferentes estados emocionais, expressando a complexidade de uma mulher que transforma trauma em pensamento.
Um filme necessário
Mais do que uma cinebiografia, a produção reafirma o papel das mulheres na construção da psicanálise brasileira — especialmente mulheres que enfrentaram, cada uma à sua maneira, formas estruturais de exclusão.
Para a comunidade psicanalítica, o filme funciona como resgate histórico e como convite à reflexão:
Como a violência social marca o aparelho psíquico?
De que maneira o exílio e o racismo atravessam a clínica?
Que heranças institucionais devemos às pioneiras que abriram caminhos em um contexto ainda mais adverso que o atual?
Ao iluminar essas trajetórias, o cinema contribui para que a história da psicanálise no Brasil não seja contada apenas a partir de seus nomes masculinos ou europeus, mas também a partir de vozes negras e femininas que deram forma própria ao campo.




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