Por que "A Empregada" faz sucesso?
- Redação do Instituto Vida e Psicanálise

- há 7 dias
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Por Redação do IVP
Baseado no livro de Freida McFadden, o thriller estrelado por Amanda Seyfried e Sydney Sweeney alcança quase US$ 200 milhões mundialmente — cinco vezes o orçamento. Não é apenas um êxito comercial; é um sintoma cultural que não pode ser explicado apenas por estratégias de marketing ou pela popularidade de suas protagonistas.
O longa tornou-se um fenômeno cultural e ultrapassou Avatar como recordista de bilheteria no Brasil. Mas o que exatamente mobiliza o público em torno dessa narrativa de segredos domésticos, inversões de poder e ambivalência moral?
Desde Sigmund Freud, a casa aparece como metáfora recorrente do aparelho psíquico. Em suas conferências introdutórias, o fundador da psicanálise descreve o inconsciente como um espaço com compartimentos ocultos, onde conteúdos reprimidos permanecem à espera de retorno.
Em A Empregada, a residência luxuosa do casal protagonista funciona como essa arquitetura simbólica: há uma fachada — a vida burguesa perfeita — e há um porão, onde se acumulam os segredos. A chegada de Millie, a jovem empregada com passado obscuro, opera como aquilo que a teoria chama de "retorno do recalcado". Ela não é apenas uma funcionária doméstica; é a irrupção de algo que deveria permanecer escondido.
O sucesso da obra também dialoga com fantasias sociais contemporâneas. A primeira delas é a fantasia da queda da elite. Em um contexto global marcado por desigualdade econômica e crescente desconfiança das instituições, narrativas que expõem a falência moral de famílias ricas encontram terreno fértil.
O prazer do espectador em assistir ao desmoronamento do casal “perfeito” pode ser compreendido, em termos lacanianos, como o gozo de ver o Outro — supostamente completo, estável e invejável — revelar sua falha estrutural. A completude nunca existiu; o filme apenas a desmonta.
Outro ponto central é a ambiguidade da protagonista. Millie transita entre vítima e ameaça, inocente e estrategista. Essa oscilação ecoa o que Melanie Klein descreveu como posição esquizo-paranoide, em que amor e ódio coexistem sem integração plena. O público é convocado a alternar identificações, ora simpatizando com sua vulnerabilidade, ora desconfiando de suas intenções. O suspense nasce dessa instabilidade.
A figura da empregada doméstica também carrega uma força simbólica particular. Trata-se de alguém que ocupa o espaço mais íntimo da casa — cozinha, quartos, objetos pessoais — mas que não pertence verdadeiramente à estrutura familiar. Vê tudo, sabe tudo, mas permanece à margem. Na metáfora psicanalítica, ela encarna o olhar do inconsciente dentro da família: aquilo que observa silenciosamente até que algo venha à tona. O thriller doméstico transforma essa tensão em motor narrativo.
Esse tipo de história não surge isoladamente. Nos últimos anos, obras como Garota Exemplar e a série You consolidaram um modelo de sucesso baseado em personagens moralmente ambíguos, relações intoxicadas e identidades instáveis. A intimidade deixou de ser território de segurança para tornar-se campo de batalha. O suspense psicológico contemporâneo desloca o terror da rua para dentro da sala de jantar.
Há ainda um elemento de gênero que merece destaque. O público leitor de McFadden é majoritariamente feminino, e o thriller doméstico atual coloca a mulher como sujeito ativo do conflito. Não se trata apenas de vítimas perseguidas, mas de personagens que manipulam, planejam e resistem. O espaço doméstico — historicamente associado à passividade feminina — é ressignificado como arena de poder. Na clínica psicanalítica, temas como rivalidade, inveja, idealização e desejo de substituição aparecem com frequência nas narrativas contemporâneas. O filme dramatiza essas tensões.
Uma leitura lacaniana permite organizar os elementos centrais da trama: a casa rica como fantasia narcísica; a empregada como objeto intrusivo que desestabiliza essa fantasia; o segredo como manifestação do Real que insiste em retornar; e o suspense como forma estética da angústia. A angústia, como ensinou Lacan, surge quando algo está fora do lugar, mas ainda não sabemos exatamente o quê. O espectador experimenta essa sensação junto com os personagens.
O êxito comercial da obra também sinaliza uma mudança mais ampla no imaginário coletivo. Narrativas centradas em heróis virtuosos têm cedido espaço a histórias de fragilidade moral e ambiguidade psíquica. O público parece menos interessado na idealização e mais disposto a confrontar falhas, fissuras e zonas de sombra. O anti-herói neurótico substitui o herói íntegro. Em vez de salvação, busca-se revelação.
A Empregada não é apenas um thriller eficiente; é um retrato simbólico de uma época. Em um mundo marcado por performatividade nas redes sociais, exposição constante e construção de imagens idealizadas, histórias que desmontam fachadas encontram eco imediato. O filme oferece ao espectador algo que vai além do entretenimento: a possibilidade de espiar o porão da casa alheia — e, talvez, reconhecer algo do próprio inconsciente.




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