Crítica: “Até logo, biblioteca”, de Rafael Bassi
- João Pedro Roriz

- 21 de dez. de 2025
- 4 min de leitura
OBRA REVITALIZA DESEJO PELO DEBATE LITERÁRIO EM TEMPOS DE EXAUSTÃO SIMBÓLICA

Por João Pedro Roriz
Rafael Bassi se despede de sua biblioteca pessoal, deixada em Porto Alegre por ocasião de sua mudança para Buenos Aires. E como resultado, revela em “Até logo, biblioteca”, livro lançado pela Casa de Astérion em 2025, um ensaio afetivo sobre o saber enquanto modo de existência. Trata-se menos de um “adeus” e mais de uma reafirmação ética do amor ao conhecimento, descolada tanto do fetichismo cultural quanto do cinismo acadêmico contemporâneo.
O autor transforma a própria biblioteca em cenário simbólico, puxa uma cadeira e conversa sobre seus autores e livros favoritos. Neste universo, em tom autobiográfico, conta história de encontros com escritores famosos e de buscas por livros raros. Essa simplicidade formal funciona como estratégia consciente de desarmamento retórico e habita o saber sem convertê-lo em instrumento de distinção. Bassi recusa a linguagem endurecida do academicismo e aposta no ensaio como forma viva de pensamento. Esse gesto é relevante quando se considera a trajetória acadêmica do autor: dois mestrados e dois doutorados em História e Letras.
“Até logo, biblioteca” expõe o limite entre o desejo e a conquista, mas salva o intelectual do colapso através da renovação da falta, da manutenção do desejo e da crença na institucionalização do saber como forma de autoconhecimento. O autor também aponta caminhos para uma possível felicidade dentro da lógica do labor intelectual, o que é raro nas atuais publicações literárias sobre produção e sobre o exercício intelectual. Em um contexto histórico marcado pelo burnout intelectual, pela perda de sentido no trabalho acadêmico e pela conversão da produção científica em burocracia de desempenho, Bassi afirma, de modo subjetivo, que é possível amar o que se faz sem que esse amor se transforme em esgotamento ou idealização ingênua.
Em 1892, Eça de Queiroz ironizou a crença civilizatória no progresso cultural como garantia de sentido e de felicidade. Em seu conto “Civilização” (2022 [1892]), o personagem Jacinto adoece pelo excesso de mediações culturais: a biblioteca monumental, os dispositivos técnicos e o acúmulo de saber tornam-se obstáculos à experiência vital. Em seu ensaio-gesto, Bassi contrapõe o efeito quantitativo e acumulativo do consumo intelectual civilizatório e denota que o saber pode permanecer vivo quando não se apresenta como totalidade fechada, mas como relação amorosa e incompleta com o mundo. Para o autor gaúcho, a biblioteca não é fetiche nem prisão intelectual; é paisagem afetiva, lugar de encontro e de elaboração subjetiva que gera múltiplos resultados.
Outro aspecto central do livro é a recusa da dicotomia moderna entre prazer e sobrevivência material. “Até logo, biblioteca” sugere que é possível ser amador no sentido etimológico do termo — aquele que ama — sem abdicar de ganhar a vida com o que faz ou de ser autoridade no campo em que atua. Essa posição ética se contrapõe tanto à romantização do fracasso quanto à lógica neoliberal que exige o sacrifício do desejo em nome da produtividade. O prazer que atravessa o livro não é hedonista nem exibicionista; é prazer silencioso, por vezes solitário, mas profundamente estruturante.
Marilena Chauí em seu ótimo “Filosofia, um modo de vida” (Planeta, 2025) sustenta que o pensamento, quando não encontra mediação no outro — seja na figura do aluno, do leitor ou do interlocutor crítico —, corre o risco de se fechar em um circuito autorreferente, aproximando-se do delírio. Ao evocar a noção psicanalítica de forclusão, a filósofa alerta que o saber precisa de alteridade para não se tornar mundo privado. Nesse sentido, Bassi defende que a docência e a escrita ensaística aparecem como dispositivos de amarração simbólica: formas de dar destino ao excesso interno de ideias sem romper com a realidade objetiva.
“Até logo, biblioteca” é uma obra orgânica que possui maturidade intelectual e afetiva; ensina com simplicidade e incita o literato a seguir o rastro da literatura sem grandes exigências. Nesse sentido, é um catalizador, pois alivia a tensão de quem lê como prática compulsória, ou de quem escreve como ofício. Traz, contudo, uma forma rara de equilíbrio: o saber como fonte de alegria, a escrita como exercício de honestidade e a docência como laço com o real. Em tempos de exaustão simbólica, Bassi oferece um exemplo de que o amor ao conhecimento é uma forma de gozo que opera no campo das necessidades comuns, orgânicas e fundamentais.
SOBRE O AUTOR
João Pedro Roriz é escritor, autor de 42 livros e 9 peças de teatro e psicanalista clínico. É formado em História, Filosofia, Psicanálise e Jornalismo. É pós graduado em Psicopedagogia, em Sexologia, em Psicanálise Clínica Avançada, em Docência. É mestre em Psicologia pela Feevale (RS). www.joaopedrororiz.com.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BASSI, Rafael. Até logo, biblioteca. Porto Alegre: Casa de Astérion, 2025.
CHAUI, Marilena. Filosofia, um modo de vida. São Paulo, 2025.
QUEIROZ, E. de. (2022). Civilização. Porto Alegre: Clube de literatura clássica. (Obra originalpublicada em 1892)
SUGESTÃO DE ARTIGO
RORIZ, J. P. de S.; GRABOWSKI, G. Perspectivas de Eça de Queiroz e Sigmund Freud sobre civilização e a felicidade. Analytica: Revista de Psicanálise, [S. l.], v. 13, n. 26, 2025. DOI: 10.69751/arp.v13i26.5466.






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