top of page

Knausgård: o exibicionismo como disfarce

Atualizado: 21 de dez. de 2025

AUTOR DECIDIU EXPOR SUA VIDA PRIVADA EM SEIS VOLUMES. MAS SERA QUE REVELOU AQUILO QUE DE FATO DISFARÇAVA COM TAMANHA AUTOEXPOSIÇÃO?



Por João Pedro Roriz


Karl Ove Knausgård sacudiu o mundo literário ao publicar Minha Luta, seis volumes imensos — quase 3.600 páginas — em que narra sua vida com um nível de detalhe que assusta até quem está acostumado a reality show. Publicados entre 2009 e 2011, os livros cobrem da infância ao casamento, passando pelo pai alcoólatra, a vergonha sexual, as humilhações cotidianas e o tédio da vida comum. A proposta é simples e ambiciosa: contar tudo. É o projeto de transformar “banalidades e humilhações” em matéria romanesca, o que rendeu ao autor um sucesso extraordinário na Noruega e no exterior.


O objetivo declarado de Knausgård, em entrevistas e conversas com a crítica, foi capturar a vida “sem filtros”, como se a experiência pudesse ser transcrita tal qual ocorre, sem cortes nem pudor — uma espécie de realismo absoluto do eu. A vida privada vira documento literário, num pacto de transparência que promete ao leitor acesso ao “interior” de um sujeito real. Não por acaso, a série é tomada como um marco da autoficção contemporânea, esse gênero em que autor, narrador e personagem se confundem deliberadamente.


O sucesso foi imediato. Não porque o protagonista seja grandioso — pelo contrário: Knausgård vende justamente por ser comum. O pai que se destrói na bebida, as pequenas covardias, as rotinas tediosas, os fracassos sexuais anticlimáticos: tudo isso, que em princípio pareceria pouco interessante, é promovido à condição de “épico do homem qualquer”. Críticos chegaram a falar na “forma da vida pequena” para descrever essa prosa que insiste em seguir cada gesto, cada copo lavado, cada crise doméstica, como se ali estivesse o segredo da existência.


Parte do fascínio está justamente no convite: “venha ver alguém que não tem medo de se expor”. O leitor sente que está diante de um diário proibido, de um arquivo íntimo que por algum motivo escapou do cofre. É a promessa do proibido em forma de prosa. Mas é também uma promessa estranha: quanto mais ele revela, mais sentimos que falta algo; quanto mais ele explica, menos sabemos. A confissão exaustiva produz um paradoxo: o excesso de dizer instala a sensação de que o essencial permaneceu intocado — como se o autor usasse milhares de páginas para contornar um ponto cego.


Essa ambiguidade não impediu o sucesso, pelo contrário. Minha Luta virou símbolo de sinceridade literária num tempo saturado de personagens polidos. Parte da crítica celebrou a série como “soberana” da autoficção; outra parte, cansada do narcisismo confessional, reagiu com irritação e tédio. A controvérsia foi alimentada também pelas consequências familiares: a família do pai ameaçou processar o autor, houve pressão para mudar nomes, e o próprio Knausgård veio a descrever o projeto como uma espécie de pacto faustiano — um sucesso literário que custou caro em termos afetivos.


Esse impulso confessional conversa, de um modo incômodo, com a cultura política recente. A extrema direita global descobriu que a exposição também rende votos: políticos que dizem barbaridades em público, naturalizam preconceitos, exibem ruindades e chamam isso de “sinceridade”. A grosseria vira autenticidade; a falta de caráter, “falar o que ninguém tem coragem”. Assim como o escritor que transforma o vexatório em estilo, o líder populista transforma a brutalidade em capital eleitoral. A fórmula é parecida: mostrar demais para que ninguém pergunte o que ficou de fora.


Aqui, a mediocridade — antes motivo de vergonha — vira produto. Na literatura, aparece como epifania da vida comum: a vida pequena ganha aura de grande obra. Na política, aparece como marca de proximidade com o “povo”: o sujeito grosseiro e ignorante se vende como “gente como a gente”. A diferença é decisiva: o escritor destrói sobretudo a própria imagem e seus vínculos afetivos; o político destrói instituições, direitos e vidas concretas. A semelhança, no entanto, é perturbadora: em ambos os casos, vende-se a ilusão de transparência, enquanto se oculta o que realmente importa.


É aqui que a psicanálise entra em cena com alguma malícia. Desde Freud, sabemos que a fala nunca é só revelação; é também defesa. Os mecanismos de defesa, na formulação clássica, são operações inconscientes que protegem o eu contra afetos e ideias insuportáveis, distorcendo ou deslocando a realidade para torná-la suportável. Em “Recordar, repetir e elaborar” (1914), Freud mostra como o sujeito não apenas lembra, mas também repete em ato aquilo que não consegue simbolizar — e essa repetição pode se mascarar como narrativa esclarecedora, quando na verdade é um modo de evitar o núcleo traumático.


Assim, a confissão massiva pode funcionar como uma defesa sofisticada: fala-se de tudo para não falar do ponto insuportável. O paciente que despeja detalhes íntimos diante do analista muitas vezes faz isso para manter a distância em relação ao que o angustia; em vez de tocar o real, multiplica-se o comentário em torno dele. A verborreia organiza uma espécie de cordão sanitário em torno do indizível. Aplicada a Minha Luta, essa chave de leitura sugere que Knausgård nos oferece abundantemente o eu — biográfico, social, familiar — justamente para poupar o que, em termos pulsionais, não se deixa escrever tão facilmente.


Lacan radicaliza essa intuição ao lembrar que o sujeito “sempre diz mais do que sabe” quando fala, e que a “fala verdadeira” não coincide com a confissão consciente, mas com aquilo que escapa: lapsos, repetições, falhas. No Seminário 11, ao discutir os quatro conceitos fundamentais da psicanálise, ele insiste que o inconsciente se manifesta justamente onde o eu perde o controle do discurso. Já no Seminário 7, sobre a ética da psicanálise, a questão é ainda mais incômoda: o que fazer com o gozo que não se deixa domesticar pela narrativa, esse excesso que nenhuma autobiografia dá conta de purgar?


Vista desse ângulo, a empreitada de Knausgård parece confirmar uma antiga suspeita formulada por Serge Doubrovsky — o crítico e romancista que cunhou o termo “autoficção”. Ao discutir autobiografia, verdade e psicanálise, ele advertia contra a ilusão de uma escrita “pura”, que apenas transcreveria a vida tal como foi. Toda narração de si, dizia ele, é necessariamente atravessada por fantasias, defesas, montagens — e é justamente por isso que a psicanálise é um bom contraponto: ela desconfia de toda transparência proclamada.


Em Minha Luta, Knausgård descreve vergonha sexual, mas quase não fala de fantasias; expõe fracassos, mas pouco interroga o gozo embutido nesses fracassos; narra humilhações, mas raramente encosta na agressividade e no ódio que as sustentam. Tudo o que é narrável aparece; o que extrapola a gramática do aceitável recua. A série inteira pode ser lida como uma imensa operação de simbolização defensiva: ele organiza a vida em narrativa para não confrontar aquilo que, se dito, desorganizaria não só a imagem pública, mas o próprio modo como ele se suporta subjetivamente.


Não é por acaso que a crítica ao livro se dirige menos ao “excesso de verdade” e mais ao tipo de verdade que está em jogo. Alguns leitores e familiares se sentiram traídos pela exposição de episódios íntimos, o que gerou ameaças de processos e rompimentos duradouros. Outros, no entanto, apontaram um desconforto diferente: a sensação de terem atravessado milhares de páginas sem encontrar, de fato, o ponto mais sombrio — aquilo que, no consultório, costuma surgir apenas depois de muito silêncio, resistência e trabalho. O incômodo não é só moral; é também estético: espera-se profundidade e recebe-se saturação.


No fim das contas, Minha Luta é a obra de um homem que disse quase tudo para não ter de dizer o essencial. Ele causa incômodo, rompe laços e provoca debates justamente porque leva a exposição a um limite raro — mas, ao mesmo tempo, encena com perfeição o movimento que a psicanálise conhece tão bem: o sujeito que fala demais para não ter de tocar naquilo que realmente importa. Talvez esse seja, paradoxalmente, o verdadeiro interesse psicanalítico e literário da obra: não o que ela mostra, mas o modo como ela organiza, com uma disciplina impressionante, o que escolhe não mostrar.


João Pedro Roriz é Mestre em Psicologia pela Feevale e autor de 42 livros.



Sugestão de artigos


  1. GIBBONS, Alison.A Cognitive Model of Reading Autofiction. English Studies, 103(5), 2022.Sobre como lemos autoficção, incluindo casos como Knausgård. (Taylor & Francis Online)Link: https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/0013838X.2022.2050611

  2. EFFE, Alexandra; GIBBONS, Alison.A Cognitive Perspective on Autofictional Writing, Texts, and Reading. In: EFFE, A.; GIBBONS, A. (org.) Autofiction in English. 2022. (SpringerLink)PDF: https://shura.shu.ac.uk/29851/1/Effe-Gibbons2022_Chapter_ACognitivePerspectiveOnAutofic.pdf

  3. DOUBROVSKY, Serge.Autobiography/Truth/Psychoanalysis. Genre, 26, 1993, p. 27–42.Texto clássico sobre autobiografia, verdade e psicanálise. (Universidade da Pensilvânia - Inglês)PDF: https://web.english.upenn.edu/~cavitch/pdf-library/Doubrovsky_Autobiography_Truth_Psychoanalysis.pdf

  4. SRIKANTH, Srikanth.Fictionality and Autofiction. Style, 53(3), 2019. (JSTOR)Link (resumo): https://www.jstor.org/stable/10.5325/style.53.3.0344

  5. KJERKEGAARD, Stefan.Handbook of Autobiography/Autofiction. (entrada sobre Doubrovsky, Lejeune etc.) (Taylor & Francis Online)Resumo: https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/08989575.2021.1904670

  6. DI GIUSEPPE, M. et al.The Hierarchy of Defense Mechanisms. Frontiers in Psychology, 2021.Revisão importante sobre mecanismos de defesa, útil para fundamentar a ideia de exposição como defesa. (PMC)Link: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC8555762/

  7. PALUMBO, J. H. P.Uma revisão teórico-conceitual sobre a ética da psicanálise de Jacques Lacan. Estudos de Psicanálise, 2016. (Pepsic)Link: https://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2176-48912016000100007

  8. BISPO, F. S.Ética da psicanálise e modalidades de gozo. Estudos de Psicologia, 2011. (SciELO)PDF: https://www.scielo.br/j/epsic/a/pG5JC5Nwb5vsYqSSHcW9MSS/?lang=pt

  9. DELANY, Paul.The Form of the Small Life: Karl Ove Knausgaard’s “My Struggle: Book Six”. Los Angeles Review of Books, 2018. (Los Angeles Review of Books)Link: https://lareviewofbooks.org/article/the-form-of-the-small-life-karl-ove-knausgaards-my-struggle-book-six/

  10. Artigo coletivo em PEP-Web.Psychoanalysis as an Extension of the Autobiographical Genre. International Review of Psychoanalysis. (Pep Web)Resumo: https://pep-web.org/search/document/IRP.019.0375A



Bibliografia (obras citadas ou subjacentes ao texto)


  • KNAUSGÅRD, Karl Ove. Min kamp (série, 6 vols.). Oslo: Forlaget Oktober, 2009–2011. (Wikipedia)

  • DELANY, Paul. The Form of the Small Life: Karl Ove Knausgaard’s “My Struggle: Book Six”. Los Angeles Review of Books, 20 set. 2018. (Los Angeles Review of Books)

  • WOOD, James. How Writing “My Struggle” Undid Knausgaard. The Atlantic, nov. 2018. (The Atlantic)

  • Min kamp. In: Encyclopaedia Britannica Online. (Encyclopedia Britannica)

  • HENSON, Johanne Elster. Autofiction at War: Why “Revenge Novels” Are Taking Off in Norway. The Guardian, 5 dez. 2019. (The Guardian)

  • ‘I knew I was doing something I shouldn’t’: Karl Ove Knausgård on the fallout from My Struggle and the dark side of ambition. The Guardian, 22 nov. 2025. (The Guardian)


Psicanálise – Freud


  • FREUD, Sigmund. Recordar, repetir e elaborar (1914). In: ___. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, v. XII. Rio de Janeiro: Imago, 1996. (Marcuse)

  • FREUD, Sigmund. Estudos sobre a histeria (1895). In: ___. Edição standard brasileira, v. II. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

  • FREUD, Sigmund. O ego e o id (1923). In: ___. Edição standard brasileira, v. XIX. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

  • DI GIUSEPPE, M. et al. The Hierarchy of Defense Mechanisms. Frontiers in Psychology, 12, 2021. (PMC)

  • Defence mechanism. In: Wikipedia, the free encyclopedia. (Wikipedia)


Psicanálise – Lacan


  • LACAN, Jacques. O seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. (NetMundi)

  • LACAN, Jacques. O seminário, livro 7: a ética da psicanálise (1959–1960). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008. (Amazon Brasil)

  • PALUMBO, J. H. P. Uma revisão teórico-conceitual sobre a ética da psicanálise de Jacques Lacan. Estudos de Psicanálise, n. 45, 2016. (Pepsic)

  • BISPO, F. S. Ética da psicanálise e modalidades de gozo. Estudos de Psicologia, 16(2), 2011. (SciELO)

  • Notes to Seminar 15: From True Speech to Waste-Object. Medium, 2024. (Discussão sobre fala verdadeira e lapsos em Lacan.) (Medium)


Autobiografia, autoficção e verdade


  • DOUBROVSKY, Serge. Autobiography/Truth/Psychoanalysis. Genre, 26, p. 27–42, 1993. (Universidade da Pensilvânia - Inglês)

  • GIBBONS, Alison. A Cognitive Model of Reading Autofiction. English Studies, 103(5), 2022. (Taylor & Francis Online)

  • EFFE, Alexandra; GIBBONS, Alison. A Cognitive Perspective on Autofictional Writing, Texts, and Reading. In: EFFE, A.; GIBBONS, A. (org.). Autofiction in English. 2022. (SpringerLink)

  • SRIKANTH, S. Fictionality and Autofiction. Style, 53(3), 2019. (JSTOR)

  • KJERKEGAARD, S. Handbook of Autobiography/Autofiction. 2022. (Taylor & Francis Online)

  • Autobiography/Truth/Psychoanalysis. Diversas entradas e discussões em bases como Semantic Scholar, CEEOL e Springer. (Universidade da Pensilvânia - Inglês)


Comentários


Antes de ir, assine nosso conteúdo.

Obrigado pela assinatura do boletim do Instituto Vida e Psicanálise

  • Instagram
  • Facebook

Roriz Serviços de Psicologia e Psicanálise | Instituto Vida e Psicanálise | CNPJ 55.461.557/0001-11.

Av Cel Orestes Lucas, 3650, Segundo Andar, Capela de Santana - RS. CEP 95745000. (51) 99695-5570.

Política de devolução de produtos até 7 dias após a compra. Entrega de produtos em até 14 dias corridos

bottom of page