Knausgård: o exibicionismo como disfarce
- João Pedro Roriz

- 9 de dez. de 2025
- 8 min de leitura
Atualizado: 21 de dez. de 2025
AUTOR DECIDIU EXPOR SUA VIDA PRIVADA EM SEIS VOLUMES. MAS SERA QUE REVELOU AQUILO QUE DE FATO DISFARÇAVA COM TAMANHA AUTOEXPOSIÇÃO?

Por João Pedro Roriz
Karl Ove Knausgård sacudiu o mundo literário ao publicar Minha Luta, seis volumes imensos — quase 3.600 páginas — em que narra sua vida com um nível de detalhe que assusta até quem está acostumado a reality show. Publicados entre 2009 e 2011, os livros cobrem da infância ao casamento, passando pelo pai alcoólatra, a vergonha sexual, as humilhações cotidianas e o tédio da vida comum. A proposta é simples e ambiciosa: contar tudo. É o projeto de transformar “banalidades e humilhações” em matéria romanesca, o que rendeu ao autor um sucesso extraordinário na Noruega e no exterior.
O objetivo declarado de Knausgård, em entrevistas e conversas com a crítica, foi capturar a vida “sem filtros”, como se a experiência pudesse ser transcrita tal qual ocorre, sem cortes nem pudor — uma espécie de realismo absoluto do eu. A vida privada vira documento literário, num pacto de transparência que promete ao leitor acesso ao “interior” de um sujeito real. Não por acaso, a série é tomada como um marco da autoficção contemporânea, esse gênero em que autor, narrador e personagem se confundem deliberadamente.
O sucesso foi imediato. Não porque o protagonista seja grandioso — pelo contrário: Knausgård vende justamente por ser comum. O pai que se destrói na bebida, as pequenas covardias, as rotinas tediosas, os fracassos sexuais anticlimáticos: tudo isso, que em princípio pareceria pouco interessante, é promovido à condição de “épico do homem qualquer”. Críticos chegaram a falar na “forma da vida pequena” para descrever essa prosa que insiste em seguir cada gesto, cada copo lavado, cada crise doméstica, como se ali estivesse o segredo da existência.
Parte do fascínio está justamente no convite: “venha ver alguém que não tem medo de se expor”. O leitor sente que está diante de um diário proibido, de um arquivo íntimo que por algum motivo escapou do cofre. É a promessa do proibido em forma de prosa. Mas é também uma promessa estranha: quanto mais ele revela, mais sentimos que falta algo; quanto mais ele explica, menos sabemos. A confissão exaustiva produz um paradoxo: o excesso de dizer instala a sensação de que o essencial permaneceu intocado — como se o autor usasse milhares de páginas para contornar um ponto cego.
Essa ambiguidade não impediu o sucesso, pelo contrário. Minha Luta virou símbolo de sinceridade literária num tempo saturado de personagens polidos. Parte da crítica celebrou a série como “soberana” da autoficção; outra parte, cansada do narcisismo confessional, reagiu com irritação e tédio. A controvérsia foi alimentada também pelas consequências familiares: a família do pai ameaçou processar o autor, houve pressão para mudar nomes, e o próprio Knausgård veio a descrever o projeto como uma espécie de pacto faustiano — um sucesso literário que custou caro em termos afetivos.
Esse impulso confessional conversa, de um modo incômodo, com a cultura política recente. A extrema direita global descobriu que a exposição também rende votos: políticos que dizem barbaridades em público, naturalizam preconceitos, exibem ruindades e chamam isso de “sinceridade”. A grosseria vira autenticidade; a falta de caráter, “falar o que ninguém tem coragem”. Assim como o escritor que transforma o vexatório em estilo, o líder populista transforma a brutalidade em capital eleitoral. A fórmula é parecida: mostrar demais para que ninguém pergunte o que ficou de fora.
Aqui, a mediocridade — antes motivo de vergonha — vira produto. Na literatura, aparece como epifania da vida comum: a vida pequena ganha aura de grande obra. Na política, aparece como marca de proximidade com o “povo”: o sujeito grosseiro e ignorante se vende como “gente como a gente”. A diferença é decisiva: o escritor destrói sobretudo a própria imagem e seus vínculos afetivos; o político destrói instituições, direitos e vidas concretas. A semelhança, no entanto, é perturbadora: em ambos os casos, vende-se a ilusão de transparência, enquanto se oculta o que realmente importa.
É aqui que a psicanálise entra em cena com alguma malícia. Desde Freud, sabemos que a fala nunca é só revelação; é também defesa. Os mecanismos de defesa, na formulação clássica, são operações inconscientes que protegem o eu contra afetos e ideias insuportáveis, distorcendo ou deslocando a realidade para torná-la suportável. Em “Recordar, repetir e elaborar” (1914), Freud mostra como o sujeito não apenas lembra, mas também repete em ato aquilo que não consegue simbolizar — e essa repetição pode se mascarar como narrativa esclarecedora, quando na verdade é um modo de evitar o núcleo traumático.
Assim, a confissão massiva pode funcionar como uma defesa sofisticada: fala-se de tudo para não falar do ponto insuportável. O paciente que despeja detalhes íntimos diante do analista muitas vezes faz isso para manter a distância em relação ao que o angustia; em vez de tocar o real, multiplica-se o comentário em torno dele. A verborreia organiza uma espécie de cordão sanitário em torno do indizível. Aplicada a Minha Luta, essa chave de leitura sugere que Knausgård nos oferece abundantemente o eu — biográfico, social, familiar — justamente para poupar o que, em termos pulsionais, não se deixa escrever tão facilmente.
Lacan radicaliza essa intuição ao lembrar que o sujeito “sempre diz mais do que sabe” quando fala, e que a “fala verdadeira” não coincide com a confissão consciente, mas com aquilo que escapa: lapsos, repetições, falhas. No Seminário 11, ao discutir os quatro conceitos fundamentais da psicanálise, ele insiste que o inconsciente se manifesta justamente onde o eu perde o controle do discurso. Já no Seminário 7, sobre a ética da psicanálise, a questão é ainda mais incômoda: o que fazer com o gozo que não se deixa domesticar pela narrativa, esse excesso que nenhuma autobiografia dá conta de purgar?
Vista desse ângulo, a empreitada de Knausgård parece confirmar uma antiga suspeita formulada por Serge Doubrovsky — o crítico e romancista que cunhou o termo “autoficção”. Ao discutir autobiografia, verdade e psicanálise, ele advertia contra a ilusão de uma escrita “pura”, que apenas transcreveria a vida tal como foi. Toda narração de si, dizia ele, é necessariamente atravessada por fantasias, defesas, montagens — e é justamente por isso que a psicanálise é um bom contraponto: ela desconfia de toda transparência proclamada.
Em Minha Luta, Knausgård descreve vergonha sexual, mas quase não fala de fantasias; expõe fracassos, mas pouco interroga o gozo embutido nesses fracassos; narra humilhações, mas raramente encosta na agressividade e no ódio que as sustentam. Tudo o que é narrável aparece; o que extrapola a gramática do aceitável recua. A série inteira pode ser lida como uma imensa operação de simbolização defensiva: ele organiza a vida em narrativa para não confrontar aquilo que, se dito, desorganizaria não só a imagem pública, mas o próprio modo como ele se suporta subjetivamente.
Não é por acaso que a crítica ao livro se dirige menos ao “excesso de verdade” e mais ao tipo de verdade que está em jogo. Alguns leitores e familiares se sentiram traídos pela exposição de episódios íntimos, o que gerou ameaças de processos e rompimentos duradouros. Outros, no entanto, apontaram um desconforto diferente: a sensação de terem atravessado milhares de páginas sem encontrar, de fato, o ponto mais sombrio — aquilo que, no consultório, costuma surgir apenas depois de muito silêncio, resistência e trabalho. O incômodo não é só moral; é também estético: espera-se profundidade e recebe-se saturação.
No fim das contas, Minha Luta é a obra de um homem que disse quase tudo para não ter de dizer o essencial. Ele causa incômodo, rompe laços e provoca debates justamente porque leva a exposição a um limite raro — mas, ao mesmo tempo, encena com perfeição o movimento que a psicanálise conhece tão bem: o sujeito que fala demais para não ter de tocar naquilo que realmente importa. Talvez esse seja, paradoxalmente, o verdadeiro interesse psicanalítico e literário da obra: não o que ela mostra, mas o modo como ela organiza, com uma disciplina impressionante, o que escolhe não mostrar.
João Pedro Roriz é Mestre em Psicologia pela Feevale e autor de 42 livros.
Sugestão de artigos
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EFFE, Alexandra; GIBBONS, Alison.A Cognitive Perspective on Autofictional Writing, Texts, and Reading. In: EFFE, A.; GIBBONS, A. (org.) Autofiction in English. 2022. (SpringerLink)PDF: https://shura.shu.ac.uk/29851/1/Effe-Gibbons2022_Chapter_ACognitivePerspectiveOnAutofic.pdf
DOUBROVSKY, Serge.Autobiography/Truth/Psychoanalysis. Genre, 26, 1993, p. 27–42.Texto clássico sobre autobiografia, verdade e psicanálise. (Universidade da Pensilvânia - Inglês)PDF: https://web.english.upenn.edu/~cavitch/pdf-library/Doubrovsky_Autobiography_Truth_Psychoanalysis.pdf
SRIKANTH, Srikanth.Fictionality and Autofiction. Style, 53(3), 2019. (JSTOR)Link (resumo): https://www.jstor.org/stable/10.5325/style.53.3.0344
KJERKEGAARD, Stefan.Handbook of Autobiography/Autofiction. (entrada sobre Doubrovsky, Lejeune etc.) (Taylor & Francis Online)Resumo: https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/08989575.2021.1904670
DI GIUSEPPE, M. et al.The Hierarchy of Defense Mechanisms. Frontiers in Psychology, 2021.Revisão importante sobre mecanismos de defesa, útil para fundamentar a ideia de exposição como defesa. (PMC)Link: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC8555762/
PALUMBO, J. H. P.Uma revisão teórico-conceitual sobre a ética da psicanálise de Jacques Lacan. Estudos de Psicanálise, 2016. (Pepsic)Link: https://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2176-48912016000100007
BISPO, F. S.Ética da psicanálise e modalidades de gozo. Estudos de Psicologia, 2011. (SciELO)PDF: https://www.scielo.br/j/epsic/a/pG5JC5Nwb5vsYqSSHcW9MSS/?lang=pt
DELANY, Paul.The Form of the Small Life: Karl Ove Knausgaard’s “My Struggle: Book Six”. Los Angeles Review of Books, 2018. (Los Angeles Review of Books)Link: https://lareviewofbooks.org/article/the-form-of-the-small-life-karl-ove-knausgaards-my-struggle-book-six/
Artigo coletivo em PEP-Web.Psychoanalysis as an Extension of the Autobiographical Genre. International Review of Psychoanalysis. (Pep Web)Resumo: https://pep-web.org/search/document/IRP.019.0375A
Bibliografia (obras citadas ou subjacentes ao texto)
KNAUSGÅRD, Karl Ove. Min kamp (série, 6 vols.). Oslo: Forlaget Oktober, 2009–2011. (Wikipedia)
DELANY, Paul. The Form of the Small Life: Karl Ove Knausgaard’s “My Struggle: Book Six”. Los Angeles Review of Books, 20 set. 2018. (Los Angeles Review of Books)
WOOD, James. How Writing “My Struggle” Undid Knausgaard. The Atlantic, nov. 2018. (The Atlantic)
Min kamp. In: Encyclopaedia Britannica Online. (Encyclopedia Britannica)
HENSON, Johanne Elster. Autofiction at War: Why “Revenge Novels” Are Taking Off in Norway. The Guardian, 5 dez. 2019. (The Guardian)
‘I knew I was doing something I shouldn’t’: Karl Ove Knausgård on the fallout from My Struggle and the dark side of ambition. The Guardian, 22 nov. 2025. (The Guardian)
Psicanálise – Freud
FREUD, Sigmund. Recordar, repetir e elaborar (1914). In: ___. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, v. XII. Rio de Janeiro: Imago, 1996. (Marcuse)
FREUD, Sigmund. Estudos sobre a histeria (1895). In: ___. Edição standard brasileira, v. II. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
FREUD, Sigmund. O ego e o id (1923). In: ___. Edição standard brasileira, v. XIX. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
DI GIUSEPPE, M. et al. The Hierarchy of Defense Mechanisms. Frontiers in Psychology, 12, 2021. (PMC)
Defence mechanism. In: Wikipedia, the free encyclopedia. (Wikipedia)
Psicanálise – Lacan
LACAN, Jacques. O seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. (NetMundi)
LACAN, Jacques. O seminário, livro 7: a ética da psicanálise (1959–1960). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008. (Amazon Brasil)
PALUMBO, J. H. P. Uma revisão teórico-conceitual sobre a ética da psicanálise de Jacques Lacan. Estudos de Psicanálise, n. 45, 2016. (Pepsic)
BISPO, F. S. Ética da psicanálise e modalidades de gozo. Estudos de Psicologia, 16(2), 2011. (SciELO)
Notes to Seminar 15: From True Speech to Waste-Object. Medium, 2024. (Discussão sobre fala verdadeira e lapsos em Lacan.) (Medium)
Autobiografia, autoficção e verdade
DOUBROVSKY, Serge. Autobiography/Truth/Psychoanalysis. Genre, 26, p. 27–42, 1993. (Universidade da Pensilvânia - Inglês)
GIBBONS, Alison. A Cognitive Model of Reading Autofiction. English Studies, 103(5), 2022. (Taylor & Francis Online)
EFFE, Alexandra; GIBBONS, Alison. A Cognitive Perspective on Autofictional Writing, Texts, and Reading. In: EFFE, A.; GIBBONS, A. (org.). Autofiction in English. 2022. (SpringerLink)
SRIKANTH, S. Fictionality and Autofiction. Style, 53(3), 2019. (JSTOR)
KJERKEGAARD, S. Handbook of Autobiography/Autofiction. 2022. (Taylor & Francis Online)
Autobiography/Truth/Psychoanalysis. Diversas entradas e discussões em bases como Semantic Scholar, CEEOL e Springer. (Universidade da Pensilvânia - Inglês)






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