A mãe ideal VS a mãe real
- João Pedro Roriz

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A mãe idealizada e a mãe real: fantasia, frustração e trabalho psíquico

Por João Pedro Roriz
A experiência da maternidade ocupa, na cultura e na vida psíquica, um lugar de extraordinária densidade simbólica. A figura da mãe aparece como fonte de cuidado, origem da linguagem, garantia de proteção e referência primeira de amor. Ao mesmo tempo, é também objeto de expectativas desmedidas, projeções idealizadas e exigências silenciosas que, muitas vezes, excedem a condição humana concreta. Entre a mãe idealizada e a mãe real instala-se um campo de tensão que atravessa a constituição do sujeito.
A mãe idealizada não é simplesmente a mãe empírica. Trata-se de uma construção psíquica. É o resultado de fantasias infantis, necessidades arcaicas de amparo e da tendência do psiquismo a produzir figuras totais e sem falhas. Nesse plano, a mãe é aquela que sabe, que acolhe incondicionalmente, que está sempre disponível e que antecipa as necessidades do filho antes mesmo que ele as formule. Essa imagem se sustenta menos na realidade objetiva e mais na função simbólica que a mãe ocupa no imaginário do sujeito.
Para que a mãe real possa ser aceita, é necessário que a mãe idealizada seja, em certo sentido, “morta” no plano psíquico. Essa morte não implica rejeição ou desamor; implica trabalho de simbolização. Trata-se de reconhecer que o outro materno é falho, limitado, atravessado por desejos próprios, frustrações e conflitos. A passagem da idealização à aceitação da realidade constitui etapa decisiva do amadurecimento emocional.
Entretanto, esse movimento não é simples. A mãe real é, paradoxalmente, o ponto mais próximo que o sujeito tem da mãe ideal. É sobre ela que recaem as expectativas construídas ao longo do desenvolvimento. A frustração surge quando a mãe concreta não coincide com a figura imaginária. Essa discrepância pode gerar ressentimento, culpa ou sentimento de desamparo, sobretudo quando a idealização foi rigidamente mantida.
A ressignificação dessa tensão passa pelo reconhecimento da fantasia que sustenta a mãe idealizada. Não se trata apenas de constatar que a mãe não corresponde ao ideal, mas de compreender que o próprio ideal foi uma criação psíquica. O sujeito produz o objeto idealizado como forma de organizar sua experiência emocional. Reconhecer essa produção implica assumir responsabilidade pela própria construção imaginária.
Esse reconhecimento abre espaço para um movimento duplo. Por um lado, permite aceitar a mãe real em sua humanidade. Por outro, possibilita compreender o quanto a própria mãe esteve submetida a idealizações — tanto as do filho quanto as próprias. A mãe também carrega um “self idealizado”, um modelo interno de quem deveria ser: suficientemente paciente, suficientemente amorosa, suficientemente presente. Quando a realidade não corresponde a esse modelo, instala-se um sentimento de fracasso ou inadequação.
Muitas mulheres, nesse contexto, passam a vestir a fantasia da mãe ideal como se fosse uma exigência moral. Buscam encarnar a imagem perfeita: a mãe sempre disponível, emocionalmente equilibrada, profissionalmente produtiva e afetivamente irrepreensível. Essa busca tende a ser ingrata e extenuante. A tentativa de coincidir com o ideal frequentemente produz culpa e frustração, pois o ideal, por definição, é inatingível.
A cultura contemporânea intensifica esse processo ao difundir modelos idealizados de maternidade. Redes sociais e discursos normativos reforçam imagens de mães sempre felizes, realizadas e competentes. O contraste entre essas representações e a experiência concreta — marcada por ambivalências, cansaço e conflitos — pode ampliar o sofrimento psíquico. A idealização cultural se soma à idealização intrapsíquica, tornando ainda mais difícil a aceitação da realidade.
O trabalho psíquico necessário consiste em reconhecer a função estruturante da falta. A mãe real não é — e não pode ser — toda. Sua limitação é precisamente o que possibilita a constituição do sujeito como desejante. Ao experimentar frustrações, o filho é convocado a sair da fusão imaginária e a construir recursos próprios. A falha materna, longe de ser mero déficit, pode operar como condição de autonomia.
Da mesma forma, a mãe que reconhece sua impossibilidade de encarnar o ideal abre espaço para uma maternidade mais autêntica. Ao admitir limites, autoriza-se a existir como sujeito, e não apenas como função. Essa desidealização não elimina o vínculo afetivo; ao contrário, pode torná-lo mais verdadeiro, pois o amor deixa de depender da perfeição e passa a sustentar-se na alteridade.
A travessia entre a mãe idealizada e a mãe real envolve luto. Luto pela figura perfeita que nunca existiu e luto pela imagem de si mesma que a mãe talvez tenha alimentado. Esse processo pode ser doloroso, mas também libertador. Ao abandonar a exigência de idealidade, abre-se espaço para relações mais complexas e menos persecutórias.
Em última instância, a questão da mãe idealizada remete à capacidade do sujeito de lidar com a ambivalência. Amar alguém implica aceitar sua incompletude. A idealização tende a apagar a diferença; a maturidade psíquica a reintegra. O reconhecimento de que tanto o filho quanto a mãe são atravessados por fantasias, desejos e limites constitui passo decisivo para uma relação menos marcada por cobranças irreais.
A aceitação da mãe real não é renúncia ao afeto, mas deslocamento do registro imaginário para o simbólico. Ao compreender que o ideal foi uma criação própria, o sujeito pode preservar o valor afetivo da mãe sem exigir dela a perfeição. E ao perceber que também a mãe luta com seus próprios ideais, torna-se possível instaurar uma relação mais humana, menos idealizada e mais ética.
Nesse percurso, o que se “mata” não é a mãe, mas a ilusão de totalidade. O que se preserva é a possibilidade de vínculo, agora sustentado não na fantasia de perfeição, mas na aceitação da condição humana compartilhada.
João Pedro Roriz é psicanalista, psicopedagogo, sexólogo Mestre em Psicologia pela Feevale - RS. É também jornalista bacharel em Comunciação Social e professor Licenciado em história e filosofia. www.joaopedrororiz.com.
SUGESTÃO DE LEITURA
📘 1. A mãe perfeita: idealização e realidade
Autor: J. G. Tourinho (2006)Tema: Reflexão psicanalítica sobre a mãe idealizada em confronto com a mãe real, suas expectativas culturais e subjetivas.🔗 Disponível na íntegra online: A mãe perfeita: idealização e realidade
📄 2. “Idealização da maternidade e herança psíquica”
Autores: TS Emidio et al. (2023)Tema: Estudo qualitativo que explora como a maternidade integral se relaciona com crises identitárias e idealizações, na interface com psicanálise de casal e família.🔗 Acesso ao artigo: Idealização da maternidade e herança psíquica
📗 3. Parenting: From Maternal Myth to Possible Love
Autor: C. S. L. Borges (2025)Tema: Artigo que deconstrói a idealização do amor materno como dado natural e discute alternativas psicanalíticas ao mito materno absoluto.🔗 Acesso ao estudo: Parenting: From Maternal Myth to Possible Love
📘 4. “A importância do papel da mãe real na formação da realidade psíquica”
Autor: Rute Stein Maltz (Revista de Psicanálise da SPPA, 1995)Tema: Texto que enfatiza o papel da mãe concreta — e não apenas idealizada — no desenvolvimento da realidade psíquica, apoiado em Winnicott e pesquisas da relação mãe-bebê.🔗 Leia o resumo: A importância do papel da mãe real na formação da realidade psíquica
📕 5. Psychoanalytic Feminism – Stanford Encyclopedia of Philosophy
Tema: Embora não seja um texto exclusivamente sobre a mãe, este dossiê discute como a psicanálise vê sexualidade, gênero e identidade (incluindo a construção simbólica da maternidade) a partir de Freud e suas repercussões feministas.🔗 Leitura completa: Psychoanalytic Feminism




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