Guerras e instabilidades geram demandas clínicas e exigem um olhar político e social do psicanalista
- Redação do Instituto Vida e Psicanálise

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Por Redação do Instituto Vida e Psicanálise
O início do século XXI foi atravessado pela expectativa de estabilidade internacional após o fim da Guerra Fria, sustentada pelo fortalecimento de organismos multilaterais e pela promessa de interdependência econômica.
No entanto, essa expectativa foi progressivamente frustrada. O mundo contemporâneo passou a ser marcado por conflitos armados recorrentes, crises geopolíticas e tensões permanentes, produzindo um ambiente global de insegurança que afeta diretamente a saúde mental das populações.

Desde os atentados de 11 de setembro de 2001, instaurou-se um ciclo de guerras prolongadas e difusas. A invasão do Afeganistão, a guerra do Iraque, a guerra civil síria, o conflito persistente entre Israel e Palestina, a guerra entre Rússia e Ucrânia, além das tensões envolvendo Taiwan e da instabilidade política venezuelana, configuram um cenário no qual a violência deixa de ser episódica e passa a estruturar o cotidiano global.
Esses conflitos não se restringem ao campo militar. Eles se estendem ao plano simbólico, informacional e econômico. Disputas territoriais caminham lado a lado com guerras discursivas, produção sistemática de desinformação e radicalização ideológica.
Nesse processo, instituições tradicionais — governos, imprensa, ciência e organismos internacionais — têm sua legitimidade fragilizada, o que mina a confiança coletiva. A fragilização institucional favorece a constituição de um espaço no qual a verdade se torna instável.

O sociólogo Zygmunt Bauman (2000) descreveu esse fenômeno como modernidade líquida, marcada pela fragilidade dos vínculos e pela fluidez das referências simbólicas. No contexto atual, essa liquidez atinge também o estatuto da verdade, transformando-a em objeto de disputa permanente.
A consequência direta dessa liquidez é a produção de um estado contínuo de insegurança subjetiva. O medo deixa de ser resposta a um perigo específico e passa a se tornar uma condição existencial permanente, afetando o planejamento de vida, a motivação profissional e a confiança no futuro.
Do ponto de vista psicanalítico, Sigmund Freud (1920; 1930) já apontava que a civilização cria expectativas de proteção que ela mesma não consegue sustentar. Em contextos de guerra e instabilidade, emerge o desamparo como experiência estruturante do sofrimento psíquico contemporâneo.
A psicanalista Melanie Klein (1946) demonstrou que ambientes ameaçadores favorecem estados paranoides, nos quais o mundo é percebido como hostil. Em escala social, isso se traduz em aumento da ansiedade, intolerância e retraimento afetivo.

Para Donald Winnicott (1965), a saúde mental depende de um ambiente suficientemente bom. Guerras, crises econômicas e colapsos institucionais configuram falhas ambientais severas, rompendo a continuidade do ser e favorecendo sentimentos de vazio e desesperança.
O psicanalista Wilfred Bion (1962) analisou como grupos submetidos ao medo tendem a operar em funcionamento regressivo. A falha das lideranças em conter a angústia coletiva desloca esse excesso emocional para o campo clínico.
Já Jacques Lacan (1962–1963) compreendeu a angústia como efeito da falha do simbólico. A repetição de imagens traumáticas e a instabilidade discursiva produzem a irrupção do Real, intensificando sintomas difusos e sem objeto definido.
A deterioração do espaço público compromete a capacidade de ação e aprofunda o isolamento subjetivo, pois não há mais confiança na capacidade de resolução dos problemas por parte das autoridades sem o argumento da força. No campo da filosofia política, Hannah Arendt (1951; 1963) auxilia a compreender o sentimento de impotência política contemporâneo. Há uma ideia de que se a sociedade falha no macro, é porque suas bases comunitárias já não são capazes de dar sustentação estrutural e formar uma cultura de paz.

Esse cenário contribui para o aumento da procura por atendimento clínico em psicanálise. O consultório passa a funcionar como espaço de elaboração simbólica de sofrimentos que não encontram lugar no discurso político ou midiático.
Os quadros clínicos mais frequentes incluem transtornos de ansiedade, depressão, crises de pânico, desconfianças, cinismos, sintomas psicossomáticos, esgotamento emocional e sensação de vazio existencial, expressando um sofrimento socialmente produzido.
A Psicanálise, diante desse universo de instabilidade econômica, política e social, contribui ao oferecer um espaço de simbolização, elaboração das perdas e reconstrução de sentidos, permitindo ao sujeito encontrar um caminho próprio em meio ao caos coletivo.
O advento de um ambiente bélico e marcado por crises demanda do psicanalista um olhar sobre os eventos políticos, sobre a geografia, sobre a economia e sobre a sociedade em que o sujeito se insere. Ou seja, o que antes era visto apenas como pano de fundo frente a subjetividade do sujeito, ganha importância maior, pois cria conexão com os signos internos do indivíduo e produz, como realidade objetiva, pressão sobre o ego. Signfica, na prática, que o psicanalista esteja atento ao ambiente em que o sujeito é formado, pois contribui na formatação da mentalidade e no modo em que o sujeito apresenta seus sintomas.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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WINNICOTT, Donald W. O ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre: Artmed, 1983.
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LACAN, Jacques. O seminário, livro 10: A angústia. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.
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