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Entenda como o inconsciente se estrutura como linguagem


A compreensão do inconsciente como fenômeno psíquico é um dos alicerces da psicanálise desde Freud (1949), mas foi com Jacques Lacan (1964), no século XX, que esse conceito ganhou uma densidade inédita.


Esse conceito é central para a clínica porque desloca a escuta do conteúdo manifesto para a estrutura do discurso do analisando. Se o inconsciente é estruturado como linguagem, é na cadeia significante — nos lapsos, repetições, trocadilhos, silêncios e equívocos — que o desejo se revela. Para aqueles que seguem a orientação lacaniana, isso implica uma prática clínica fundada na escuta do significante e na leitura da posição subjetiva que o sujeito ocupa em sua própria fala.


Entenda melhor no texto abaixo, da psicanalista convidada Lilia Ramos, o que significa esse conceito lacaniano que intriga alunos de psicanálise.


O INCONSCIENTE ESTRUTURADO COMO LINGUAGEM

Por Lilia Ramos


Ao afirmar que “o inconsciente é estruturado como uma linguagem”, Lacan desloca a psicanálise para um campo de leitura simbólica, onde o sujeito é atravessado pela fala e determinado pelo significante. Sua proposição não se limita a uma metáfora poética, mas inaugura uma virada epistemológica que reposiciona a teoria psicanalítica em diálogo com a linguística estrutural e a filosofia contemporânea.


Esse pensamento nasce do projeto lacaniano de “retorno a Freud”, um retorno que não se resume à repetição, mas à reinterpretação crítica. Lacan retoma o inconsciente freudiano à luz da linguística de Saussure e Jakobson, da antropologia estrutural de Lévi-Strauss e das leituras filosóficas de Hegel e Heidegger. Nessa costura entre linguística e psicanálise, ele resgata a essência simbólica da descoberta freudiana: o inconsciente fala. E fala não apenas através dos sonhos e lapsos, mas em cada tropeço da palavra, em cada falha da linguagem, revelando aquilo que o sujeito não sabe que sabe.


Em Freud (1949) já encontramos os indícios dessa dimensão: a linguagem atravessa o sonho, o ato falho, o chiste, o sintoma. Lacan (1964), porém, radicaliza esse ponto. Ele rompe com a concepção estável do signo linguístico de Saussure e propõe a primazia do significante sobre o significado. Ao inverter a posição dos termos, coloca o significante acima da barra, uma barra que, em sua leitura, simboliza o recalque, e demonstra que o sentido não é fixo, mas escorrega, se desloca, se perde e se reconstrói continuamente. Assim, o inconsciente deixa de ser um depósito de pulsões reprimidas e passa a ser entendido como uma estrutura regida pelas leis da linguagem, um sistema de diferenças e deslizamentos significantes.



Essa concepção transforma a escuta analítica. O analista lacaniano não busca o conteúdo da fala, mas suas falhas, seus equívocos, o ponto onde o discurso vacila e o inconsciente se manifesta. Cada palavra é tomada como um vestígio simbólico, um rastro de desejo que se inscreve entre o dito e o não dito. Nesse sentido, o inconsciente é o “discurso do Outro”: não uma instância íntima e isolada, mas um campo atravessado pela linguagem e pela cultura, onde o sujeito se constitui pela alteridade e pela lei simbólica.


Ao longo de seu ensino, Lacan (1964) amplia essa perspectiva. Do primado do simbólico, ele passa a integrar os registros do Imaginário e do Real, dimensões que escapam à linguagem, mas a complementam. O Imaginário, ligado à imagem e ao espelho, e o Real, o impossível de simbolizar, completam o tripé Real, Simbólico e Imaginário, demonstrando que a linguagem, embora estruturante, não é totalizante. Há sempre algo que resiste à palavra, o resto, o gozo, o sintoma que insiste onde a significante falha. Nesse movimento, Lacan reconhece que nem tudo do sujeito cabe no discurso; há um excesso, uma fissura que marca o limite da linguagem frente à experiência humana.


Essa leitura inspirou campos diversos, da filosofia à crítica literária, e marcou autores como Foucault, Derrida, Althusser e Butler, que souberam reconhecer no pensamento lacaniano uma chave para compreender as tramas do sujeito e do poder.

A força da teoria lacaniana está justamente nesse deslocamento. Ao reinscrever Freud na lógica da linguagem, Lacan (1964) restitui à psicanálise seu caráter simbólico, resgatando-a de leituras adaptativas e psicologizantes. Sua proposta permite uma escuta que ultrapassa o conteúdo e se volta à estrutura, à cadeia significante que organiza o desejo e o sintoma. Essa leitura inspirou campos diversos, da filosofia à crítica literária, e marcou autores como Foucault, Derrida, Althusser e Butler, que souberam reconhecer no pensamento lacaniano uma chave para compreender as tramas do sujeito e do poder.


Entretanto, sua teoria não é isenta de críticas. Autores como André Green apontam que o rigor estrutural de Lacan corre o risco de reduzir o sujeito à pura linguagem, negligenciando a dimensão afetiva e corporal que também compõe o inconsciente. O afeto, o gesto, o pulsional e o somático não se deixam capturar inteiramente pelo significante. Há uma vida emocional que pulsa antes da palavra, um corpo que sente antes de simbolizar. Essa é talvez a principal tensão do legado lacaniano: ao fazer do inconsciente uma estrutura, ele o distancia da carne e do afeto que Freud nunca abandonou.


Além disso, a opacidade do discurso lacaniano, propositalmente enigmático, gerou tanto fascínio quanto resistência. Sua escrita, repleta de jogos linguísticos e neologismos, tornou-se, para alguns, um obstáculo à prática clínica. Ainda assim, esse hermetismo guarda coerência com o próprio objeto que estuda: o inconsciente não se entrega à transparência. A dificuldade faz parte da travessia analítica, e Lacan parece ter desejado exatamente isso, um saber que não se doméstica, que resiste à simplificação.


Hoje, revisitar Lacan é reconhecer tanto sua potência quanto seus limites. Sua teoria permanece vital porque convida à escuta do que escapa, mas precisa dialogar com novos saberes, da neurociência à fenomenologia, que ampliam a compreensão da mente e do corpo. A articulação entre linguagem, afeto e corporeidade é o desafio contemporâneo para umapsicanálise que não queira se encerrar no discurso, mas permanecer viva diante da complexidade humana.


Lacan oferece uma bússola para compreender o sujeito moderno: fragmentado, simbólico, atravessado pelo Outro. Seu mérito maior foi recolocar o inconsciente no campo da linguagem, devolvendo-lhe o caráter de enigma e deslocamento. No entanto, é preciso não perder de vista que o sujeito fala, mas também sente, sofre e goza. O inconsciente fala, sim, mas às vezes, grita no corpo. É nesse espaço entre o dizer e o sentir que a psicanálise continua necessária: não como doutrina, mas como escuta viva do que, em nós, ainda não encontrou palavras.


REFERÊNCIAS:


FINK, Bruce. O sujeito lacaniano: entre a linguagem e o gozo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. p. 23–45; 89–112;

FREUD, Sigmund. A interpretação dos sonhos (1900). Rio de Janeiro: Imago, 1949. p. 112–145.

GREEN, André. O discurso vivo: uma teoria psicanalítica do afeto. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1999. p. 15–36; 102–140.

LACAN, Jacques. Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise (1953). In: ______. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. p. 238–324.

LACAN, Jacques. O seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985. p. 25–61; 95–128.

LACAN, Jacques. O seminário, livro 3: As psicoses (1955-1956). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988. p. 45–67; 123–156.

MILLER, Jacques-Alain. Percurso de Lacan: uma introdução. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1987. p. 9–27; 73–101.

NASIO, Juan-David. Cinco lições sobre a teoria de Jacques Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1993. p. 13–52.

ROUDINESCO, Élisabeth. Jacques Lacan: esboço de uma vida, história de um sistema de pensamento. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. p. 57–112; 245–312.


COMO CITAR ESTE ARTIGO


RAMOS, Lilia. O inconsciente estruturado como linguagem. Capela de Santana: Revista Vida e Psicanálise. 18/02/26. Link: www.vidaepsicanalise.com/revista.


LILIA RAMOS é psicanalista clínica e aluna da Clínica Psicanalítica Lacaniana do Instituto ESPE.



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