A psicanálise para além da clínica
- Redação do Instituto Vida e Psicanálise

- há 21 horas
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Psicanalistas são escalados para palestras, aulas e opiniões em matérias de jornais, o que demostra a versatilidade da profissão.
Por Redação do IVP
Em dezembro de 2025, o jornal O Globo publicou a matéria “Fechar ciclos ou fugir da dor? Saiba o que a psicanálise diz sobre o fenômeno”, trazendo ao debate público uma questão profundamente contemporânea: a banalização do sofrimento psíquico nas redes sociais e a transformação da dor em slogan motivacional.
A escolha da pauta é acertada e necessária. Em um tempo em que expressões como “fechar ciclos” circulam como fórmulas rápidas de superação, a presença de um psicanalista no debate — neste caso, Lucas Scudeler — recoloca a discussão no terreno da responsabilidade subjetiva, da elaboração do sofrimento e da maturidade emocional.

Quando um veículo de grande circulação abre espaço para a psicanálise interpretar fenômenos culturais, não está apenas publicando uma opinião: está reconhecendo a relevância social da escuta clínica e da teoria psicanalítica como ferramentas de compreensão da vida contemporânea.
A Psicanálise como saber público
A matéria evidencia algo fundamental: o psicanalista não está restrito ao consultório.
Ele é também:
produtor de conteúdo;
consultor em projetos científicos, acadêmicos e artísticos;
especialista em saúde mental e cultura;
professor;
palestrante;
formador de opinião em debates éticos e sociais.
A psicanálise nasceu no diálogo com a cultura. Desde Freud, que analisou a religião, a arte e a civilização, o psicanalista é chamado a interpretar sintomas não apenas individuais, mas coletivos. A pauta de O Globo confirma que o discurso psicanalítico continua sendo referência quando o assunto é sofrimento humano.
Livre exercício profissional e responsabilidade formativa
No Brasil, o exercício da psicanálise é amparado pelo princípio constitucional da liberdade profissional (art. 5º, XIII, da Constituição Federal), que garante o livre exercício de qualquer trabalho ou profissão, atendidas as qualificações que a lei estabelecer.
Não há lei que restrinja a prática da psicanálise a uma categoria específica, o que assegura sua atuação como campo autônomo de formação. Essa liberdade, contudo, não significa improvisação. Pelo contrário: exige rigor.
A legitimidade do psicanalista não se funda em registro de conselho profissional, mas na tradição formativa consolidada historicamente pelo chamado tripé analítico:
Análise pessoal
Supervisão clínica
Estudo teórico sistemático
É essa estrutura que garante ética, técnica e responsabilidade. Institutos sérios e associações respeitáveis mantêm esse padrão como eixo da formação competente. Quando um jornal consulta um psicanalista, pressupõe — e espera — essa solidez formativa.
A academia e o reconhecimento do saber psicanalítico
Outro ponto relevante é que, atualmente, universidades brasileiras oferecem graduações e cursos de estudos teóricos em psicanálise. Esse movimento acadêmico demonstra o reconhecimento da psicanálise como campo consistente de investigação e reflexão.
Além disso, a formação psicológica e psiquiátrica permanece profundamente marcada pela contribuição psicanalítica. Conceitos como inconsciente, transferência, repetição, pulsão, estrutura psíquica e elaboração simbólica seguem sendo pilares indispensáveis para a compreensão clínica do sofrimento humano.
Mesmo correntes que divergem da psicanálise dialogam com ela — direta ou indiretamente. Isso demonstra sua permanência como referência estruturante no campo da saúde mental.

A importância do psicanalista na matéria de O GLOBO
A matéria de O Globo só alcança densidade porque há um psicanalista capaz de:
diferenciar ritual simbólico de transformação psíquica real;
explicar a repetição de padrões afetivos;
articular neuroquímica do apego e estrutura inconsciente;
distinguir espiritualidade ética de “misticismo rápido”;
apontar a dor como processo, não como slogan.
Sem a escuta clínica e o referencial teórico da psicanálise, o texto se limitaria a opinião ou moralismo. O que o sustenta é o arcabouço conceitual que permite compreender por que “fechar ciclos” pode ser, muitas vezes, apenas fuga da própria história. Ou seja, a presença do psicanalista qualifica o debate.
Continuidade e responsabilidade
Matérias como essa reforçam a importância de manter uma formação séria, ética e comprometida com a transmissão do saber. Vivemos um tempo de discursos rápidos, fórmulas instantâneas e promessas de cura através de receitas e tratamentos padronizados.
A psicanálise sustenta outra lógica: a da travessia. Para o psicanalista João Pedro Roriz, quando a imprensa reconhece essa diferença, contribui para o fortalecimento da credibilidade do campo e para ampliar o alcance social da escuta analítica.
— A psicanálise não é apenas técnica clínica. É também leitura da cultura, produção de pensamento, responsabilidade ética diante do sofrimento humano. E enquanto houver dor que não caiba em frases prontas, haverá espaço para o trabalho do psicanalista — ressaltou Roriz.
Ao dar espaço à psicanálise em um tema tão difundido nas redes sociais, a grande imprensa reafirma que o sofrimento humano não pode ser reduzido a tendências, memes ou discursos motivacionais. Há uma diferença decisiva entre performar superação e elaborar a dor. Essa distinção exige tempo, escuta qualificada e compromisso ético — elementos que só uma formação sólida e um percurso analítico consistente podem sustentar. Valorizar essa presença no debate público é, portanto, valorizar a própria complexidade da experiência humana.
Que iniciativas como essa se multipliquem. Quando o psicanalista é convocado a interpretar fenômenos culturais, educacionais e afetivos, reafirma-se a vitalidade de um campo que atravessa a clínica e alcança a sociedade. Em tempos de respostas rápidas, a psicanálise permanece como espaço de profundidade. E é justamente nessa profundidade que se constrói continuidade, responsabilidade e futuro para o trabalho analítico.






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