Retrospectiva: 16 momentos da psicanálise em 2025
- Redação do Instituto Vida e Psicanálise

- 18 de dez. de 2025
- 11 min de leitura
Por Redação

A psicanálise chegou ao fim de 2025 mais “visível” e mais disputada: cresceu em capilaridade (eventos, formação, cursos e presença digital), reafirmou seu centro clínico (sofrimento, vínculo, linguagem, trauma) e, ao mesmo tempo, foi empurrada para debates públicos sobre regulação profissional, saúde mental e tecnologia.
Em termos gerais, o ano consolidou uma psicanálise que circula mais — entre instituições, universidades, conselhos profissionais e mídia — e que precisará, em 2026, sustentar melhor seus critérios de formação, seu diálogo com pesquisa e sua ética do cuidado.
A seguir, a retrospectiva em ordem crescente de relevância (do 16º ao 1º), com os principais eventos que marcaram o ano da Psicanálise em 2025.
16) CETEP promoveu debate sobre “Psicanálise e IA” em palestra pública

Em 14 de agosto de 2025, o CETEP – Centro de Estudos de Terapia e Psicanálise (Campinas) publicou e transmitiu uma palestra dedicada ao encontro (e ao atrito) entre psicanálise e inteligência artificial, colocando em pauta, para estudantes e público interessado, o que muda na escuta clínica, quem fala em nome da psicanálise nesse cenário e como a formação pode responder a novas mediações tecnológicas. (YouTube)
O movimento é sintomático de 2025: instituições de formação ampliaram sua agenda para temas contemporâneos — IA, clínica online, ética, mercado — e isso reacendeu discussões sobre limites (o que é “terapia via IA”? o que é supervisão real?), responsabilidades e risco de “soluções prontas” para sofrimento psíquico. (YouTube)
Fonte (CETEP / YouTube):
15) A EPF reuniu candidatos e escolas europeias na 10ª EPCUS Conference, em Bruxelas

Entre 2 e 4 de outubro de 2025, a European Psychoanalytical Federation (EPF) realizou em Bruxelas a 10th EPCUS Conference, um encontro voltado a formação e intercâmbio entre candidaturas, que buscou responder como sustentar transmissão clínica em tempos de mudança institucional e cultural, por que a formação continua central e onde a Europa tenta padronizar diálogo sem homogeneizar escolas. (PMC)
Embora menos “midiático” que congressos gigantes, esse tipo de reunião pesa muito no cotidiano do campo: temas como supervisão, critérios de treinamento e cultura institucional aparecem ali como “engenharia” silenciosa da psicanálise — aquilo que decide, na prática, que analista se forma e com que ética. (PMC)
Fonte (IPA/EPF – agenda oficial):
14) Taiwan sediou a conferência “Conflict and Convergence” em janela prolongada
De 1º de julho a 24 de outubro de 2025, organizadores locais divulgaram a 2025 International Psychoanalysis Conference in Taiwan sob o eixo “Conflict and Convergence”, mirando um público internacional e regional para discutir o que une e separa escolas, como conflitos sociais atravessam a clínica e por que a convergência virou palavra-chave num campo fragmentado. (MDPI)
O destaque aqui é o “formato”: encontros em janela longa sugerem um esforço de continuidade (não só um fim de semana) e favorecem circulação de trabalhos, mesas temáticas e intercâmbio entre tradições — um retrato bem fiel de 2025, quando psicanálise e geopolítica da cultura (quem fala, de onde fala, em que idioma) ficaram mais explícitas. (MDPI)
Fonte (site oficial do evento):
13) A IFPE fez da “Verdade” seu tema central em Washington, D.C.
Em 6–8 de novembro de 2025, a International Forum for Psychoanalytic Education (IFPE) levou a Washington, D.C., uma conferência com o tema “TRUTH”, apostando numa pergunta incômoda e atual: que verdade a psicanálise produz, como ela se diferencia de opinião/ideologia e por que isso importa numa era de polarização e narrativas concorrentes. (research.vu.nl)
A escolha do tema também organiza subtemas: verdade e transferência, verdade e memória, verdade e trauma, verdade e linguagem — além do embate entre “fatos” e “realidade psíquica”. É o tipo de agenda que tende a crescer em 2026, quando a clínica será cada vez mais pressionada por demandas de “provas rápidas” e respostas imediatas. (research.vu.nl)
Fonte (IFPE – página oficial):
12) Livro epstemológico envolve psicanálise, política e pedagogia nas universidades

Em 7 de abril de 2025, o professor Max Cavitch (University of Pennsylvania) anunciou a publicação de “Psychoanalysis and the University: Resistance and Renewal from Freud to the Present” (Routledge), defendendo por que a psicanálise segue relevante na vida universitária (currículo e saúde mental), como resistências históricas se repetem e quem sustenta hoje essa ponte entre clínica, humanidades e educação. (web.sas.upenn.edu)
O anúncio chama atenção também pelas vozes públicas que endossam a urgência do tema, como Andrew Solomon, além de psicanalistas e acadêmicos citados na própria página do lançamento — sinal de que, em 2025, a “batalha cultural” pela legitimidade da psicanálise voltou a passar pela universidade, não só pelos institutos. (web.sas.upenn.edu)
Fonte (Psyche on Campus / UPenn – anúncio do livro):
11) Obra reabre Freud em chave lacaniana com casos clínicos clássicos

Em 30 de maio de 2025, a Routledge lançou “Freud’s Principal Case Studies Revisited” (editado por Helena Texier e Eve Watson), reunindo autores contemporâneos para reler Dora, Pequeno Hans, Schreber, Homem dos Ratos, Homem dos Lobos e o caso da “jovem homossexual”, recuperando o que esses casos ainda ensinam, como mudam as leituras técnicas e por que o “arquivo Freud” segue vivo. (Routledge)
Além de ser um lançamento editorial de peso, o livro é um termômetro: 2025 viu crescer a disputa por “quem interpreta Freud” (e com que consequências clínicas), num momento em que muitas formações se expandem rapidamente. Voltar aos casos, com rigor, virou um gesto de “reancoragem” técnica e teórica. (Routledge)
Fonte (Routledge – página do livro):
10) Obra brasileira sintetiza “tempos” e pluralidade da psicanálise

Em 2025, a editora Artes & Ecos colocou em circulação “Os tempos da psicanálise: Freud, Ferenczi, Winnicott, Lacan”, de Jô Gondar, propondo o que seria escutar o tempo (do sujeito, da cultura, da clínica), por que pluralidade e história importam e como diferentes tradições podem dialogar sem virar “pensamento único”. (arteseecos)
O livro entra como peça de um fenômeno maior de 2025: a psicanálise brasileira insistiu em ser, simultaneamente, clínica e reflexão cultural. Obras desse tipo tendem a ganhar vida em grupos de estudo e formação, justamente porque ajudam a amarrar genealogias (Freud/Ferenczi/Winnicott/Lacan) que, no cotidiano, muitas vezes se apresentam como “escolas rivais”. (arteseecos)
Fonte (Artes & Ecos – página do livro):
9) Pareceres permitem enfermeiros praticarem terapia.

Em 24 de janeiro de 2025, o Conselho Regional de Enfermagem - COREN divulgou parecer afirmando que enfermeiros poderiam atuar com psicanálise, psicoterapia e ABA, desde que atendidas exigências de habilitação/formação; na sequência, o tema ganhou reação e repercussão institucional, inclusive com registro de tensão com o campo da Psicologia. (Coren-PR)
O assunto foi uma das faíscas mais fortes do ano porque toca o nervo da psicanálise no Brasil: formação, mercado, proteção do público e “análise leiga” versus regulamentação. Ao longo de 2025, conselhos e entidades relembraram bases normativas e disputaram linguagem (“escuta qualificada” vs “psicoterapia”), mostrando que 2026 deve seguir com embates sobre escopo profissional e critérios mínimos de formação. (Coren-PR)
Fontes (Conselhos / instituições):
Coren-PR (24/01/2025)
https://corenpr.gov.br/coren-pr-divulga-parecer-sobre-atuacao-de-enfermeiros-com-especialidade-em-aba-na-emissao-de-laudos-e-na-pratica-de-psicanalise-e-psicoterapia/
CRP-SC (26/02/2025)
https://site.crpsc.org.br/apos-reuniao-com-cfp-cofen-remove-postagem-sobre-parecer-sobre-psicoterapia/
Cofen (25/02/2025 – parecer e contextualização normativa)
https://www.cofen.gov.br/parecer-no-33-2024-cofen-camtec-ctepienf/
8) Um marco acadêmico: revisão sobre psicoterapia psicanalítica breve para adolescentes com depressão

Em 2025, o pesquisador Nick Midgley publicou com colegas na PubMed uma revisão/reflexão a partir de um ensaio randomizado no Reino Unido (contexto do estudo IMPACT) sobre Short-Term Psychoanalytic Psychotherapy (STPP) para adolescentes com depressão, discutindo o que se aprendeu sobre efetividade, como a técnica opera (aliança terapêutica, rupturas e reparos) e por que dropout e adesão são parte do resultado clínico. (PubMed)
É um tipo de “notícia científica” que a psicanálise precisa colecionar melhor: não apenas defesa abstrata do método, mas aprendizado operacional — o que funciona, com quem, em que condições — e como traduzir isso para formação e serviços de saúde. Esse eixo (pesquisa aplicada + clínica real) deve crescer em 2026. (PubMed)
Fonte (PubMed):
7) Outra frente de evidência: revisão sistemática sobre psicodinâmica/psicanálise em idosos
Em 2025, um artigo na SpringerLink reuniu e avaliou literatura sobre princípios psicodinâmicos/psicanalíticos em idosos, perguntando o que há de evidência e adaptação técnica para essa população, por que envelhecimento exige ajustes (luto, perdas, corpo, tempo) e como a clínica pode se sustentar sem infantilizar o sujeito ou reduzir sofrimento a “declínio”. (Springer Link)
O valor disso em 2025 é estratégico: o envelhecimento populacional pressiona serviços e formação, e a psicanálise precisa mostrar que sabe trabalhar com temporalidade, finitude e transformações do self no ciclo vital — um terreno em que ela, historicamente, tem muito a oferecer, mas nem sempre comunica em linguagem de pesquisa. (Springer Link)
Fonte (SpringerLink):
6) A APsA fez seu grande encontro presencial do ano em San Francisco

De 4 a 9 de fevereiro de 2025, a American Psychoanalytic Association (APsA) realizou seu National Meeting no Palace Hotel, San Francisco, reunindo formação continuada e debates sobre clínica contemporânea, com a proposta de discutir como a psicanálise responde ao sofrimento atual e por que o encontro segue sendo peça central de coesão institucional no maior mercado anglófono.
Além da programação científica, encontros desse porte funcionam como “território de alianças”: aproximam institutos, pesquisadores, candidatos e analistas experientes; concentram redes de supervisão e parcerias; e dão corpo a tendências (infância e adolescência, gênero e sexualidade, ética, pesquisa e ensino). Isso ajuda a explicar por que, mesmo com a expansão do digital, 2025 reforçou o valor do presencial.
Fonte (APsA – programa oficial em PDF):
5) A APsA também realizou sua 114th Annual Meeting em formato virtual
Ao longo de 2025 (com janela de atividades e pós-evento), a APsA conduziu a 114th Annual Meeting em formato virtual, mantendo a engrenagem de educação continuada e debates temáticos e respondendo, na prática, como uma comunidade clínica internacional sustenta troca quando distância e custos limitam presença.
O virtual, aqui, não é “menor”: ele amplia acesso e muda o perfil do público (mais estudantes, mais gente fora dos grandes centros). Ao mesmo tempo, reacende a pergunta que marcou o ano: que parte da transmissão psicanalítica depende do encontro vivo — e que parte pode circular com qualidade em novos formatos.
Fonte (APsA – página institucional):
4) No Brasil, a moda dos bebês reborn levantou questões em Psicanálise

2025 foi o ano dos bebês reborn e de todo o debate em saúde mental sobre o tema. Em 22 de junho de 2025, o Instituto Vida e Psicanálise publicou um artigo analisando o “pânico moral” em torno dos bebês reborn, discutindo o que o fenômeno revela sobre fantasia social, hostilidade e espetáculo, por que certos objetos viram condensadores de angústia coletiva e como conceitos (como relações de objeto) entram na leitura cultural do tema. (Vida e Psicanálise)
O texto é representativo de uma tendência forte de 2025: a psicanálise reapareceu como ferramenta de leitura do presente — redes sociais, moralismo, medo de decadência, desamparo — sem abandonar o repertório técnico. Essa ponte entre clínica e cultura costuma gerar debate (há quem ame, há quem rejeite), mas foi um dos motores de circulação pública da psicanálise no ano. (Vida e Psicanálise)
Fonte (Instituto Vida e Psicanálise – site oficial):
3) Gramado sediou o 30º Congresso Brasileiro de Psicanálise, da FEBRAPSI

De 22 a 25 de outubro de 2025, a FEBRAPSI realizou em Gramado/RS o 30º Congresso Brasileiro de Psicanálise, reunindo sociedades e participantes do circuito brasileiro ligado à IPA para discutir rumos clínicos, institucionais e de formação, e marcando onde o Brasil se encontra na cena internacional e como organiza sua diversidade interna. (qub.ac.uk)
O peso do evento, em 2025, foi também simbólico: o congresso foi apresentado como edição “histórica” na comunicação pós-evento, sinalizando escala, circulação e consolidação de redes. Em um ano de disputa sobre formação e profissão, a FEBRAPSI apareceu como polo de referência institucional e, para muitos, como “padrão-ouro” de transmissão no país. (LinkedIn)
Fonte (FEBRAPSI – site oficial do congresso):
2) Lisboa concentrou o maior marco global: o 54º Congresso da International Psychoanalytical Association

Entre 30 de julho e 2 de agosto de 2025, a International Psychoanalytical Association (IPA) realizou em Lisboa o 54th IPA Congress, anunciado sob o tema “Psychoanalysis – an anchor in chaotic times”, para discutir por que a psicanálise ainda serve de “âncora” em tempos caóticos, como o campo responde a crises sociais e subjetivas e quem sustenta sua governança e renovação internacional. (Instagram)
Por ser o encontro mais abrangente do ano no circuito IPA, o congresso funciona como “síntese” e bússola: concentra trocas entre continentes, dá visibilidade a temas dominantes (crise, laço social, trauma, cultura, técnica) e tende a irradiar agendas para formações locais. Em 2025, essa função foi ainda mais forte porque a psicanálise viveu o paradoxo de crescer em público e, simultaneamente, ser cobrada por critérios e evidências. (Instagram)
Fonte (divulgação de evento / parceiro editorial):
1) DEBATE NACIONAL (Congressos e Audiências): Christian Dunker e a pergunta que sacudiu a psicanálise sobre formação acadêmica e faculdade de psicanálise

No dia 18 de setembro de 2025, em uma audiência pública realizada na Comissão de Saúde da Câmara dos Deputados, em Brasília, o psicanalista e professor Christian Ingo Lenz Dunker participou de uma sessão em que se discutiu, junto a representantes do Ministério da Educação (MEC) e de diversas entidades do campo da psicanálise, se a psicanálise deveria ser integrada como disciplina estruturante nos cursos de psicologia, ou se poderia vir a existir faculdades de psicanálise como graduação própria. O debate — que tratou de formação e regulamentação profissional — teve presença de vozes representativas do setor e foi transmitido e registrado pela própria Câmara, colocando questões-chave sobre definição do objeto clínico, critérios de habilitação, responsabilidade ética e limites da formação técnica (Câmara dos Deputados, Audiência Pública – Formação de Psicanalistas, 18/09/2025). (Portal da Câmara dos Deputados)
Christian Dunker, professor titular de Psicologia na USP, foi um dos debatedores que defendeu a distinção profunda entre formação acadêmica e formação clínica específica para a prática psicanalítica, argumentando que, embora a psicanálise tenha lugar legítimo no ambiente universitário (como campo de estudo teórico e histórico), sua transmissão clínica não se reduz a currículo de graduação e exige elementos que vão além da simples oferta curricular — como análise pessoal, supervisão clínica e compromisso ético contínuo. Dunker chamou atenção para o fato de que a proliferação de cursos rotulados como “psicanálise” sem esses critérios pode representar “pseudoformações” que esvaziam a especificidade da experiência psicanalítica e confunde o público leigo. (ESPEcast)
No segundo momento do debate, representantes do MEC apontaram para a necessidade de clareza regulatória (quem habilita, o que significa “exercer clínica”, como proteger o público), enquanto psicanalistas presentes reforçaram que a psicanálise, enquanto prática clínica e tradição histórica, não se confunde automaticamente com técnica de psicoterapia curricular de 4 anos. Essa tensão — entre currículo formal e transmissão clínica — foi, em 2025, um dos temas que mais mobilizaram instituições, associações, escolas e conselhos ao longo do ano, tocando questões de identidade profissional, epistemologia do saber psicanalítico e responsabilidades do Estado na educação em saúde mental. (ESPEcast)
Fonte (Audiência Pública – Câmara dos Deputados, 18/09/2025):
Câmara dos Deputados — Audiência Pública: Formação de Psicanalistas (Comissão de Saúde)
https://www.camara.leg.br/evento-legislativo/78861
Conclusão: o que 2025 ensinou — e o que 2026 tende a exigir
No balanço do ano, 2025 foi menos o ano de “uma grande teoria nova” e mais o ano da disputa por critérios: quem forma, quem pode atender, como sustentar ética e qualidade numa expansão acelerada, e como conversar com pesquisa sem perder a especificidade do inconsciente.
Ao mesmo tempo, eventos internacionais e nacionais mostraram que a psicanálise segue capaz de se reorganizar em torno de temas do presente (caos social, tecnologia, saúde mental pública) sem abandonar o núcleo clínico.
Para 2026, dá para esperar três frentes mais intensas: (1) regulação e disputa de escopo profissional (no Brasil e fora), com mais “casos” e pareceres; (2) pesquisa aplicada em populações e contextos específicos (adolescentes, idosos, serviços públicos), porque a cobrança por evidência não vai diminuir; e (3) ética e tecnologia (IA, clínica online, formação híbrida), com a pergunta central: como modernizar formatos sem mercantilizar o sofrimento nem empobrecer a experiência analítica. (POST)
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