Totem e Tabu e o caso Epstein
- João Pedro Roriz

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O caso Epstein e a necessidade humana da fantasia
Uma leitura à luz de Totem e Tabu

Por João Pedro Roriz
O caso Jeffrey Epstein veio a público como vêm as más notícias que não pedem licença: primeiro como escândalo, depois como perplexidade, por fim como mal-estar difuso. O que se soube, aos poucos, já seria suficiente para abalar qualquer confiança mínima na ideia de justiça: um homem rico e influente que, durante anos, manteve uma rede de abuso sexual envolvendo adolescentes, protegendo-se por meio de dinheiro, relações políticas e acordos judiciais inacreditavelmente brandos. Quando, já idoso, finalmente foi preso de maneira mais contundente, morreu dentro da prisão. A versão oficial fala em suicídio; as circunstâncias falam em falha. Entre uma coisa e outra, instalou-se a dúvida — e, com ela, algo mais profundo do que a simples suspeita.
Desde então, o caso deixou de ser apenas um processo criminal para se tornar uma espécie de narrativa aberta, continuamente reescrita pela imaginação coletiva. Listas, nomes, ilhas, aviões, encontros. Tudo isso circula, se mistura, se amplia. E, em determinado ponto, o que era indignação legítima começa a ganhar contornos fantasiosos: rituais secretos, práticas canibalescas, cultos ocultos, sociedades subterrâneas que governariam o mundo a partir do abuso e do sacrifício. Nada disso encontra sustentação factual. Não há provas, investigações ou testemunhos confiáveis que indiquem tais práticas. Ainda assim, essas ideias se espalham com facilidade desconcertante.
Talvez porque o que o caso Epstein toca não seja apenas o campo do crime, mas algo mais sensível: o limite do que conseguimos suportar como real. Há acontecimentos que ferem de tal modo a confiança básica no laço social que exigem, para serem digeridos, um suplemento imaginário. Quando a violência se mostra nua, sem ornamentos simbólicos, o psiquismo tende a adorná-la. Não para torná-la mais horrível, mas paradoxalmente mais explicável.
Em "Totem e Tabu", Freud (2022 | 1913) observa que as sociedades se organizam em torno de crimes que não podem ser plenamente reconhecidos. O mito do assassinato do pai primordial não pretende ser uma reconstituição histórica, mas uma narrativa sobre como o laço social nasce da culpa, da ambivalência e da necessidade de interditar um gozo excessivo. O pai, ao mesmo tempo temido e desejado, morto e sacralizado, retorna como lei.
Freud escreve que o tabu é uma proibição muito antiga, imposta contra desejos poderosos. Essa formulação ajuda a compreender por que, diante de um caso como o de Epstein, o imaginário coletivo não se contenta com a descrição objetiva dos crimes. O abuso sexual de menores já é, por si só, uma violação radical do pacto civilizatório. Mas o que realmente desorganiza é a percepção de que esse abuso coexistiu, durante anos, com prestígio social, circulação em ambientes acadêmicos, filantropia e proteção institucional. O mal, nesse caso, não veio de fora: ele habitava o centro.
Quando essa constatação se impõe, algo vacila. A fantasia conspiratória surge como tentativa de reorganizar o mundo psíquico. Transformar Epstein em figura quase mítica, associá-lo a rituais de canibalismo e segredos conspiratórios, é uma maneira de afastar a ideia mais inquietante: a de que o horror pode operar de modo banal, sem símbolos grandiosos, sustentado apenas por dinheiro, silêncio e indiferença.
Em Totem e Tabu, Freud observa que, após o assassinato do pai, os filhos não se libertam; ao contrário, tornam-se ainda mais submetidos à sua imagem. O pai morto tornou-se mais poderoso do que jamais fora em vida, escreve ele. A morte de Epstein produziu efeito semelhante. Em vez de encerrar o caso, abriu-o definitivamente. Sua figura passou a condensar fantasias, culpas e medos que não encontram outro lugar onde se depositar.
Não se trata, portanto, de ingenuidade ou ignorância. A adesão a teorias conspiratórias responde a uma necessidade psíquica legítima: a de proteger-se do desamparo. O sujeito comum, ao tomar contato com o caso, é atravessado por duas experiências difíceis de elaborar: a primeira é a reativação de fantasias infantis ligadas à vulnerabilidade e à falta de proteção. A segunda é a constatação de que a lei, esse grande Outro que deveria garantir limites, pode falhar de modo escandaloso. Entre uma coisa e outra, instala-se a angústia.
Freud lembra que o sentimento de culpa nasce da ambivalência: amor e ódio dirigidos ao mesmo objeto. Algo semelhante ocorre aqui. Há ódio dirigido às elites, às instituições, ao poder; mas há também um apego silencioso à ideia de que existe uma ordem, ainda que perversa, governando tudo. A conspiração oferece esse consolo: alguém sabe, alguém controla, alguém decide. O acaso, a falha e a ausência de garantias são muito mais difíceis de tolerar.
Do ponto de vista clínico, isso tem consequências importantes. O sujeito que chega ao consultório capturado por essas narrativas não está buscando esclarecimento factual. Ele busca amparo. Confrontá-lo diretamente com dados e desmentidos costuma ser ineficaz, quando não contraproducente. O trabalho analítico passa por escutar o que, naquela crença, funciona como defesa contra a angústia. Que sensação de abandono está sendo reencenada? Que experiência de impotência encontra ali uma forma de nomeação?
Aos poucos, o trabalho consiste em permitir que o sujeito suporte a ideia de que nem todo mal é organizado, nem toda violência tem sentido oculto, nem toda falha pode ser reparada por uma narrativa totalizante. Em outras palavras, trata-se de recolocar a falta em circulação. Onde tudo parece explicado, nada pode ser simbolizado.
O caso Epstein seguirá sendo lembrado, investigado e debatido. Isso é necessário. Mas talvez seja igualmente necessário reconhecer que o excesso de fantasia que o cerca diz menos sobre ele e mais sobre o humano. Como Freud já intuía, há histórias que despertam fantasmas antigos porque tocam no ponto mais sensível da civilização: o lugar da lei, do desejo e do desamparo. Quando esse ponto é ferido, a imaginação corre para fechar a ferida. Nem sempre com delicadeza, mas quase sempre por necessidade.
BIBLIOGRAFIA FREUD, S. Totem e Tabu. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 2022 [1913].
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João Pedro Roriz é psicanalista clínico, professor e escritor. Autor de 42 livros. É Mestre em Psicologia pela Feevale - RS. Email: jproriz@gmail.com.






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