A pele como fronteira simbólica
- João Pedro Roriz

- há 6 dias
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Por João Pedro Roriz
Uma reportagem publicada pelo jornal argentino La Nación em 14 de fevereiro de 2026 e repercutida no mesmo dia por veículos brasileiros como O Globo e Época trouxe à luz um fenômeno clínico pouco conhecido, mas profundamente perturbador: a chamada infestação delirante, também conhecida na literatura médica como parasitose delirante ou síndrome de Ekbom.
A matéria acompanha o caso de Pat Hannon, uma mulher que começou a acordar durante a noite com uma sensação intensa de picadas nas pernas. Convencida de que estava sendo atacada por insetos invisíveis, ela lavou roupas de cama, contratou serviços de controle de pragas e chegou a considerar a dedetização completa da casa. Apesar de toda a convicção subjetiva da presença dos parasitas, nenhum exame ou observação médica encontrou qualquer evidência de infestação.
Esse tipo de experiência não é isolado. Segundo especialistas entrevistados na reportagem, há um número crescente de pessoas que procuram entomologistas — pesquisadores de insetos — convencidas de que possuem parasitas sob a pele. Em muitos desses casos, o que se encontra é uma condição psiquiátrica rara caracterizada por uma crença inabalável de infestação, mesmo na ausência de qualquer evidência objetiva.
Mas a questão é mais complexa do que parece. A infestação delirante costuma surgir em um território médico ambíguo. Alguns pacientes apresentam sensações físicas reais, como coceira, formigamento ou ardor na pele. Essas sensações podem estar associadas a alergias, neuropatias, doenças autoimunes, distúrbios hormonais ou efeitos colaterais de medicamentos.
Em outros casos, entretanto, a literatura médica aponta para um quadro mais próximo da psicose delirante. O paciente passa a interpretar sensações corporais comuns como sinais inequívocos de infestação por insetos.
Na reportagem do La Nación, a entomologista Gale Ridge, da Estação Experimental Agrícola de Connecticut, afirma que tem observado um aumento desses casos em períodos de instabilidade social.
Segundo ela, picos ocorreram após crises, como a crise financeira de 2008 e a pandemia de Covid-19 ou em cenários de guerra, como ocorre atualmente.
Esses dados sugerem que fatores emocionais e sociais podem atuar como gatilhos importantes para o desencadeamento do quadro. É nesse ponto que o diálogo entre medicina e psicanálise começa a se tornar relevante. A medicina já reconhece há décadas que o corpo humano não funciona de maneira isolada da vida psíquica. A chamada medicina psicossomática estuda justamente os mecanismos pelos quais emoções intensas, traumas ou estados prolongados de ansiedade podem influenciar o funcionamento fisiológico.
A sensação de formigamento ou coceira na pele, por exemplo, pode estar associada a: alterações neurológicas, processos inflamatórios ou reações do sistema nervoso autônomo. No entanto, a forma como o sujeito interpreta essas sensações corporais também desempenha papel fundamental. A psicanálise parte justamente dessa premissa: o corpo não é apenas biológico; ele também é um corpo vivido, simbolizado e interpretado pelo sujeito.
Assim, uma sensação cutânea pode se tornar o núcleo de uma narrativa psíquica que organiza a experiência da pessoa. Em determinados contextos de sofrimento psíquico, essa narrativa pode assumir a forma de uma convicção delirante. Sigmund Freud investigou fenômenos semelhantes em vários momentos de sua obra. Nos primeiros estudos sobre histeria, desenvolvidos com Josef Breuer no final do século XIX, Freud observou pacientes que apresentavam sintomas corporais sem causa orgânica identificável. Paralisias, dores, anestesias e outras manifestações físicas surgiam como expressão simbólica de conflitos psíquicos reprimidos.
Em Estudos sobre a Histeria (1895), Freud propõe que determinados sintomas corporais funcionam como uma conversão de conflitos psíquicos em manifestações físicas. Mais tarde, em textos como Neurose e Psicose (1924), Freud discute o fenômeno do delírio como uma tentativa de reorganização da realidade psíquica quando o sujeito se vê confrontado com experiências internas intoleráveis. Embora a infestação delirante não seja idêntica aos casos estudados por Freud, há um ponto em comum importante: a tentativa do psiquismo de dar sentido a sensações ou conflitos que não encontram explicação imediata.
A psicanálise não substitui a medicina nem pretende explicar sozinha uma condição clínica complexa como a infestação delirante. No entanto, ela pode oferecer ferramentas importantes para compreender a dimensão subjetiva da experiência.
Entre as questões que podem ser investigadas em análise estão:
quais eventos emocionais precederam o surgimento dos sintomas;
quais fantasias ou significados o paciente atribui às sensações corporais;
que conflitos ou traumas podem estar associados ao momento em que o quadro se iniciou.
A clínica psicanalítica trabalha com a hipótese de que o sofrimento corporal também pode carregar significados inconscientes. Isso não significa que toda doença tenha origem psicológica — ideia frequentemente simplificada em discursos populares sobre psicossomática. Significa, antes, que a forma como o sujeito vive sua doença está profundamente ligada à sua história emocional e simbólica.
Em casos como o descrito na reportagem, a atuação do psicanalista exige cautela e articulação com outros profissionais da saúde. Alguns princípios fundamentais da escuta psicanalítica incluem:
Escuta sem julgamento
Pacientes com convicções delirantes frequentemente relatam experiências de descrédito ou humilhação no contato com profissionais de saúde. A escuta analítica busca acolher o sofrimento sem reforçar a crença delirante.
Exploração da narrativa do sintoma
Em vez de confrontar diretamente a crença do paciente, o analista pode investigar quando os sintomas começaram, em que contextos surgem e que associações aparecem na fala do sujeito.
Trabalho com ansiedade e trauma
Se o quadro estiver associado a eventos traumáticos ou estados intensos de estresse, a análise pode ajudar a elaborar esses conteúdos.
Articulação interdisciplinar
A psicanálise não substitui tratamentos médicos ou psiquiátricos. Em muitos casos, a abordagem mais eficaz envolve colaboração entre dermatologistas, neurologistas, psiquiatras e psicoterapeutas.
A reportagem do La Nación também levanta uma questão mais ampla: até que ponto o conhecimento médico atual consegue explicar todas as formas de sofrimento humano? A história da medicina mostra que muitas doenças consideradas “inexplicáveis” em determinado momento acabam sendo compreendidas décadas depois. Outras permanecem parcialmente obscuras. É nesse território de incerteza que medicina, psicologia e filosofia frequentemente se encontram.
A psicanálise, ao investigar a dimensão inconsciente da experiência humana, propõe que o corpo não pode ser entendido apenas como um organismo biológico. Ele também é atravessado por desejos, fantasias e conflitos que nem sempre chegam à consciência. No caso da infestação delirante, a pergunta permanece aberta: trata-se apenas de um distúrbio psiquiátrico, de uma reação fisiológica mal compreendida ou de um fenômeno que envolve simultaneamente corpo, mente e contexto social? Talvez a resposta esteja justamente na colaboração entre diferentes áreas do conhecimento.
Enquanto isso, histórias como a de Pat Hannon lembram que, diante da incerteza médica, escutar o sofrimento humano com seriedade, acolhimento e continência continua sendo o primeiro passo para qualquer forma de cuidado.
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João Pedro Roriz é psicanalista clínico, professo e escritor. Mestre em Psicologia pela Feevale RS. Contato: jproriz@gmail.com.




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